O presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o governador Jaime Lerner (PFL) classificaram o projeto da hidrelétrica de Salto Caxias, no Rio Iguaçu, que inauguraram ontem, como exemplo da moderna tecnologia nacional e de ações sócio-ambientais, principalmente no relocamento de contingentes humanos. O governador disse que a obra é ‘‘irretocável’’, salientou o amplo projeto de reassentamento de famílias retiradas das áreas alagadas, e o presidente aproveitou para anunciar que seu governo passará a estimular incisivamente formas de produção familiar no campo.
Durante a cerimônia da inauguração ontem, em Capitão Leônidas Marques, apenas o presidente e o governador discursaram, ambos de improviso. Jaime Lerner disse que Salto Caxias é ‘‘orgulho de nossa engenharia, pois nela foi empregada a mais alta tecnologia, e foi construída em tempo recorde’’. A obra foi iniciada em janeiro de 95. Ele destacou principalmente as ações sócio-ambientais em torno do projeto, salientando cuidados com o meio ambiente e com o reassentamento de 614 famílias de agricultores, transferidas de áreas íngremes (barrancas do rio) para terras consideradas de primeira qualidade, em municípios da região Oeste e Sudoeste.
O reassentamento ocorreu com muita antecedência em relação ao fechamento da barragem (em outubro do ano passado). Nos novos locais, as famílias dividiram 17,5 mil hectares de terras e receberam o mínimo 15 hectares cada uma (o que ultrapassou esta quantia foi calculado em relação às propriedades que perderam), independentemente de terem sido proprietárias, meeiras ou arrendatárias. As próprias famílias escolheram as áreas que seriam compradas pelo governo. Receberam casas de 92 metros quadrados, com água e energia, paiol, e estrutura pública como estradas, escolas, postos de saúde e de telefonia, igreja e salão comunitário.
A Copel garantiu ainda recursos para a consolidação dos reassentamentos, correção e fertilização do solo, e convênios para programas sociais e educativos. O projeto em torno de Salto Caxias é reconhecido como modelo mundial na relocação de populações de áreas impactadas por barragens. O reconhecimento parte inclusive da organização dos reassentados, a Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Iguaçu (Crabi), uma das entidades que se opõem às barragens pelos danos sócio-ambientais que provocam. Entre os presentes à inauguração da usina, estava José Uliano Camilo, principal líder da Crabi.
‘‘Caxias é um exemplo para a própria reforma agrária’’, disse ainda o governador Jaime Lerner. O presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu a importância do projeto, e aproveitou para anunciar que a produção empreendida pelas próprias famílias rurais passará a receber grande incentivo, através do programa Pronaf. Num dos raros trechos de cunho ‘‘político’’ de seu discurso, o presidente disse que é preciso estimular ‘‘quem trabalha na terra, e não movimentos, movimentos...’ - uma clara alusão ao Movimento dos Sem-Terra, que luta pela reforma agrária e faz oposição ao governo.
Fernando Henrique Cardoso comentou também ações de seu governo no setor energético, lembrando que, em 95, haviam 23 obras paralisadas no setor. Todas foram reiniciadas e muitas estão concluídas, acrescentando 5 milhões de MW ao sistema de geração. ‘‘Isso equivale a cinco vezes o que é gerado na Bolívia’’, comparou o presidente.
No total, somando-se outras obras, destacou que ao longo de quatro anos foram ofertados mais 10 milhões de MW. ‘‘Não fosse assim, poderíamos ter um apagão diário no Brasil’’, completou o presidente, lembrando do recente blecaute no sistema nacional de distribuição de energia.

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