‘‘Mês passado, estive doente e fiquei de molho por três dias. Não agento ficar em casa parado, quando voltei a trabalhar foi um alívio.’’ O autor da frase seria um jovem rapaz, empolgado com o início da carreira e ansioso para abrir horizontes? Não. Embora transpire jovialidade, Dácio de Oliveira é um simpático sexagenário que há 46 saiu de Capetinga (MG), com seu irmão Décio, para acabar trabalhando no Salão Coroados, na área central de Londrina. Ali ambos fazem barba e cabelo até hoje. Como colega, Ederaldo de Almeida, ainda há mais tempo no salão da Rua Souza Naves: 48 anos entre tesouras e lâminas.
  Mudanças de lá para cá? Muitas, tanto na cidade quanto na rotina de trabalho. ‘‘A concorrência era bem menor’’, explica Ederaldo. ‘‘Só havia dois salões em toda a região central, Londrina era outra, a Souza Naves ainda era coberta de paralelepípedos.’’ Os três começaram num esquema que hoje pode soar um tanto exótico: eram arrendatários das cadeiras do estabelecimento, que pertencia a um homem chamado Chico. Algum tempo depois, passaram a funcionários do Hotel Coroados, que adquiriu o salão e lhe impingiu o nome que até hoje perdura.
  Mais alguns anos, e os donos do hotel perceberam que seria mais negócio deixar o comando com quem de fato entendia do riscado: os três compraram o salão do qual hoje são orgulhosos proprietários. Segundo Dácio isso foi há uns 10, 15 anos. O irmão contesta: ‘‘Cê tá louco, a gente é dono há pelo menos uns 20.’’ ‘‘Ah, faz bastante tempo’’, suspira Ederaldo, para fechar a conta. A imprecisão com nomes e datas parece sintomática da personalidade de quem está mais preocupado em trabalhar do que em se gabar de feitos e recordes.
  O orgulho só transparece quando são mencionadas pessoas famosas que passaram pelo salão. ‘‘Esse menino que hoje é prefeito de Curitiba, o Beto, vem aqui desde criancinha com o pai dele, o José Richa’’, ri com gosto Dácio, ‘‘e volta e meia ainda dá uma passadinha aqui’’. Entre artistas de passagem e outros figurões da cidade, os três destacam o empresário Mário Fuganti, personagem da história londrinense, como o cliente mais marcante: ‘‘Grande homem, freqüentou a barbearia até pouco antes de morrer’’, lembra Ederaldo.
  Falar em barbearia fazia mais sentido nos anos dourados de Londrina, mas até hoje há quem ofereça seu pescoço para ser escanhoado: ‘‘Antigamente, aos sábados à tarde, só fazíamos barba, enchia de gente. Era na navalha, que hoje não se usa mais, virou tudo descartável, pouca gente ainda vem aqui para isso, cortamos mais cabelo mesmo’’, conta Décio, deixando escapar certa saudade pelo tempo das lâminas afiadas.
  Mas a nostalgia não combina com esses senhores tão ocupados e ativos no ofício. Para arrematar a entrevista, este repórter especula se depois de tanto tempo... Antes da frase ser concluída, um deles parece adivinhar a pergunta por vir: ‘‘Não, a gente não se cansa. Isto aqui é nossa vida’’. E também é uma parte da vida de Londrina, Dácio.

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