Salada de fruta na língua portuguesa
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terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Guilherme Borges<br>Reportagem Local 
Com ar de boneca, Emília - do Monteiro Lobato - explica a um anjo, em uma de suas memórias, os desafios da Língua Portuguesa. Mostra a injustiça feita a alguns animais, como o cão e a vaca, que ao virarem adjetivo recebem conotação pejorativa. ''O cão é um colosso. Pois bem. Quando um homem compara outro homem ao cão, dizendo 'Tú és um cão', o outro puxa a faca. Desaforo é isso...'', explica.
E o mesmo acontece na quitanda. Apesar de ser uma das frutas mais saboreadas pelos brasileiros, que homem gostaria de ser chamado de banana? Ou ainda, quem quer descascar um abacaxi, ou resolver um pepino? Tais expressões devem ganhar cena novamente com a nova novela global ''Pé na Jaca''. ''É possível que a novela traga expressões como esta (enfiar o pé na jaca) para o cotidiano. A língua é dinâmica como a vida. Se caiu na mídia, volta a ser utilizada'', explica a professora do curso de Letras da Universidade Norte do Paraná (Unopar), Mariângela Lunardeli.
Mas nesta salada de fruta, mamão papaya não pode ser confundido com maracujá. A língua portuguesa esconde pejorativos e preconceitos. ''Sabe-se por exemplo, que frutas européias são sempre associadas a coisas boas, mas as brasileiras ou tropicais, a idéias pejorativas. Uma mulher não acharia ruim ter pele de pêssego, acharia?'', questiona a professora do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Vanderci de Andrade Aguilera.
A balconista Dalva Francisca Abelha Lima concorda sobre o pêssego, mas não gostaria de ter pele de maracujá. ''Quando a fruta é nova, até que é macia. Mas quando envelhece...'', faz um suspense seguido de risadas. Ela diz que costuma usar muitas gírias. ''É engraçado porque quando estou com um problema para resolver não falo que estou com abacaxi, mas com uma bexiga, que a qualquer momento pode estourar'', ri.
Outra atendente, Judite Elias Calheiros, desconfia desse preconceito linguístico. ''Acho que termos como estes, como chamar uma pessoas de goiaba, não eram usados com malícia. As pessoas usavam porque era o meio em que viviam na época. Aí associavam as frutas e as coisas do sítio com a vida. Hoje são usadas as expressões da internet''. De fato, o Brasil há tempos deixou de ser agrário. Dados do censo de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que apenas 18% da população vive na área rural.
''Tudo isto exemplifica a dinamicidade da língua. Alguém mais usa a palavra enceradeira? Não, porque não se usa mais o objeto. Entretanto, nunca se usou tanto a palavra computador como agora'', retoma a explicação a professora da Unopar. A colega acrescenta: ''É preciso ainda estudar se estas expressões revelam uma disputa velada entre cidade e campo, o que, a princípio eu não acredite que aconteça. Mas o bacana é pensar sobre essa riqueza da língua portuguesa, que é encantadora''.
Puxando pelas lembranças do tempo em que morava no distrito rural de Guaravaera, Calheiros, atualmente com 50 anos, se diverte: ''Com esta história toda, eu me recordei de uma expressão que a gente usava e que nunca mais ouvi alguém dizer. Quando uma coisa precisava ser feita com pressa, a gente falava: vamos, farinha anita, farinha anita''.


