Sal grosso ou sal fino o churrasco é masculino
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de janeiro de 2009
Apolo Theodoro<br>Especial para a FOLHA 
Se as mulheres estão em todas as profissões como se diz, levanta o dedo aí quem já viu mulher fazendo churrasco. E então? Ninguém viu? Nem eu, eu e um monte de gente também nunca vimos uma mulher churrasqueira. Faça chuva ou sol, seja o sal fino ou grosso, quem prepara e faz o churrasco é sempre um homem, seja ele velho ou moço. É verdade, observe, na hora da janta ou do almoço, carne com ou sem osso, até mesmo carne de pescoço, na boca da churrasqueira tem sempre um homem no posto.
O segurança autônomo Raildo Alves Gomes, casado, embora nunca tenha visto mulher neste ofício, faz uma ressalva temperada de afeto: ''Só vi a minha velhinha lá em casa, ela assa um espetinho na brasa perfeito pra nós dois saborearmos, uma delícia!'' E por falar em espetinho, o vendedor autônomo Carloy de Paula Pontes deu uma espetada nas mulheres em geral - ''A mulher vai bem em todos os outros setores, mas na cozinha é um desastre'' - e outra na sua - ''Lá em casa mesmo... Ainda bem que eu viajo muito, se não fosse isso não dava pra encarar a bóia dela não'' - sem a menor cerimônia.
Já o aposentado Adalberto Oliveira coloca um tempero mais picante na conversa: ''Isso é preconceito do homem que não abriu este mercado para a mulher. Quando abrir pra uma, pode anotar, vai abrir para as demais porque a mulher faz qualquer coisa que o homem faz. E bote aí: quando ela entrar no mercado vai passar o homem pra trás, vai arrebentar, todo mundo vai querer a mulher como churrasqueira.''
Para Graziele Casaril, que trabalha em uma churrascaria , além de ser um serviço pesado para a mulher, há uma questão mais profunda: ''Acho que é também uma questão antropológica, o homem das cavernas caçava e assava a carne, acho que é uma continuação disso'', opina.
Opinião que tem o aval da professora de Antropologia da Universidade Estadual de Londrina, Elena Andrei: ''Assar carne é um ritual exclusivamente masculino. É assim no mundo inteiro, tanto entre os cossacos, na Sibéria, como entre os índios, com a diferença de que, em algumas culturas indígenas, são as mulheres que fazem o fogo, mas quem assa a carne é sempre o homem'', destaca a professora e coloca uma pitada de lenda na fala: ''Nos CTGs, se mulher botar a mão na faca a faca fica cega.''
Antropologia à parte, e antes de entrar no prato principal, volto a insistir: se alguém viu mulher trabalhando como churrasqueira, por favor levante o dedo! Vamos, anime-se, se você viu, a reportagem vai lhe dar um prêmio a calhar: um espeto do famoso e disputado ''churrasco de gato'' a ser entregue no próximo jogo do Londrina no Estádio do Café. Alguém aí levantou o dedo?
Prato principal
Um telefonema às principais churrascarias da cidade comprovou: em todas elas, sem exceção, o homem é o churrasqueiro. E, visitando algumas delas, o que mais se ouviu, com uma ou outra variação, foi que é um serviço pesado e grosseiro para ser feito por uma mulher. É isso mesmo Graziele?
''Precisa de força mesmo, os espetos são enormes e pesados e a manipulação deles é mais difícil pra mulher, além do calor que é insuportável'', alega Graziele Casaril, questionando se vale a pena a mulher entrar nesse mercado ''só por querer competir com o homem.''
''Não acho que seja o calor, no meio das panelas, onde elas trabalham, também é muito quente'', refuta o churrasqueiro Cláudio Feliz, que trabalha rodeado de seis mulheres. Para ele, mulher pode sim trabalhar como churrasqueira porque ''é o mesmo que cozinhar, não tem segredo nenhum.'' Sua auxiliar de cozinha, Sirlei Ribeiro Souza Silva, tem a mesma opinião e diz que ''se um dia me convidarem para ser churrasqueira aqui da casa eu aceito.''
Em outra churrascaria, o gerente João Batista Barros argumenta que certas profissões - ''Você já viu mulher coveira?'' - são muito pesadas para a mulher e ser churrasqueiro é uma delas. ''São cerca de 60 graus na boca da churrasqueira, não que isso impeça a mulher exercer a profissão, no entanto, em mais de 20 anos de churrascaria, nunca me apareceu uma mulher querendo trabalhar de churrasqueira'', garante João Batista e acrescenta:
''Veja bem, tem que espetar uma costela de cinco ou seis quilos, manipular um carneiro de 25 quilos ou mais, carregar caixa de picanha com mais de 40 quilos, como uma mulher vai fazer isso?'', pergunta o gerente. Já o churrasqueiro Antonio Ricardo Alves, o ''Chico'', é curto e grosso: ''Não boto muita fé em mulher na churrasqueira, não.''
Dorlei Santo Chiesa, um dos donos de uma churrascaria, tem outra opinião para explicar o fenômeno: ''Acho que é tradição, uma divisão das tarefas domésticas, em todas as casas é o homem que faz o churrasco e a mulher as outras comidas.'' Para ele, no entanto, se a mulher entrar no mercado a concorrência que se cuide: ''A mulher é mais caprichosa, trabalha com mais afinco, com mais amor e se preocupa mais com higiene do que o homem, e isso é importante nesta função. Mas elas ainda chegam lá'', vaticina Dorlei.
A recepcionista de uma outra churrascaria, Luciana Gajdeczka, após repetir a cantilena de que ''é um trabalho muito puxado, num local muito quente'', saiu da mesmice: ''Tem que ter conhecimento de carne e eu penso que a mulher não tem muito interesse nisso, além disso o churrasqueiro tem que impor respeito aos passadores de carne, ser durão, e acho que eles não respeitariam muito uma mulher, seria mais difícil para nós'', considera Luciana e destaca outro ponto fraco da mulher: a vaidade. ''Na churrasqueira, ela não vai poder cuidar muito das unhas, usar perfume, além de ficar cheirando à carne e ter a roupa respingada de sangue.''
Criada dentro de uma churrascaria com mais sete irmãs, a empresária Isabel Queiroz conta que nenhuma delas se interessou pela churrasqueira. ''A gente fazia salada, lavava louça, passava roupa, arrumava as mesas, essas coisas... Acredito que as mulheres podem fazer qualquer serviço, mas isso é uma escolha pessoal, agora, cá pra nós, que churrasqueira é serviço de homem, isso é, tá louco seu, aquilo é um inferno de quente, pra mim não dá!''
Então, já que é assim, que churrasco é mesmo coisa de macho... ''Quem falou? Lá em casa, a maior parte das vezes, quem faz o churrasco sou eu!'', discorda a doméstica Flauzina Rosa e atiça mais o braseiro da polêmica: ''Isso é preconceito da própria mulher que acha que é serviço de homem, não concordo, não tem nada demais, a mulher faz coisa muito pior do que isso.''
Mas dizem que é um serviço pesado demais pra mulher, você não concorda, Flauzina? Ela fez cara de deboche acompanhada de um muxoxo desdenhoso e falou: ''Hum...! Pesado? Pesado é bater concreto! Eu bato concreto, sou servente de pedreiro do meu marido na construção da nossa casa, aquilo sim é serviço pesado, fazer churrasco é moleza!'', desdenhou Flauzina e fechou a conta: ''Se pegar pra tomar conta eu dou conta de uma churrasqueira em casa e em qualquer lugar.''
Sobremesa
Já que o assunto é churrasco, você sabia que o sal fino é mais usado que o sal grosso na hora de temperar a carne? Para o gerente de churrascaria João Batista Barros, esta história de que sal grosso é melhor é papo de gaúcho. Ele explica:
''Antigamente, no tempo das comitivas, era comum morrer algum boi pelo caminho e, pra não perder a carne, os peões colocavam pra conservar no sal grosso que era levado para o gado lamber. Daí veio esta história de que o sal grosso é melhor, isso é folclore, o sal fino é melhor para a carne vermelha.''
Por falar em sal fino, se você vive chacoalhando inutilmente o saleiro na hora de temperar a salada e o sal não sai, seus problemas acabaram: coloque o sal que vai no saleiro numa panela, põe no fogo, vai mexendo até começar a amarelar, aí apague o fogo que está pronto. Pode experimentar, o sal fica soltinho, sai facilmente, não entope a boca do saleiro como geralmente acontece, deixando o nego fulo de raiva.
Pra finalizar, você sabia que o ''Aurélio'' ignorou completamente as mulheres e restringiu o vocábulo churrasqueira a uma ''grelha, armação de ferro ou aparelho elétrico, para fazer churrasco.'' Para o respeitado dicionário só existe ''churrasqueiro, substantivo, masculino, cozinheiro especialista em churrascos.''


