Saída de artesãos divide opiniões
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sábado, 02 de agosto de 2003
Rosângela Vale<br> Reportagem Local 
A discussão que se arrasta há meses entre a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) e os artesãos das praças Marechal Floriano Peixoto e Rocha Pombo se intensificou esta semana. Na última quarta-feira, eles decidiram recusar a mudança de local proposta pela prefeitura (leia texto ao lado). Eles não conseguem enxergar outro lugar apropriado para garantir o sustento da família.
Ao lado de um dos cartões postais da cidade, o que garante grande fluxo de turistas, e do Calçadão, passarela diária de trabalhadores, a praça Marechal Floriano Peixoto concentra artesãos instalados ali há cerca de duas décadas. É o caso de Marina Peres. ''Aqui, a gente tem certeza do nosso salário, uma noção do que vamos ganhar. Sou sozinha, tenho mais de 50 anos e dois filhos deficientes para tratar. Sair da praça, nem pensar. Sei que ia ficar praticamente desempregada'', argumenta ela.
Na opinião do artesão paulista Sérgio Henrique de Oliveira, que vive na cidade há um ano, existem outras praças mais problemáticas que estão precisando de cuidados da prefeitura. ''As autoridades se preocupam com as praças centrais só para garantir ibope. Tem lugares que precisam muito mais desse investimento. Lá, as pessoas também votam e pagam impostos. Nós, que trabalhamos aqui, já arrumamos um jeito de nos virar, de dar o sustento para a família, mas tem gente que nem consegue sair de casa para procurar trabalho por causa das condições das ruas, sem asfalto, com barro quando chove, esgoto à céu aberto'', observa.
Ele lembra ainda a constituição de 1988, onde consta que lugar de artesanato é em praça pública. Até seu material de trabalho é extraído dali. Sérgio comercializa suas flautas e bijuterias embaixo de um jacarandá, cujas sementes se transformam em brincos. O lado poético da atividade não passou desapercebido pelo securitário Douglas Varley Cuenca, 35 anos. ''Não concordo com a mudança. Acho que se perderia a nostalgia do artesanato, que sempre esteve na praça desde que o mundo é mundo'', diz ele.
A analista de sistemas Silvana Tuge, 26 anos, também acha que os artesãos devem permancer ali. ''Eles já fazem parte dessa praça, são pessoas que criam, que estão produzindo para o mercado'', justifica. De acordo com ela, não haveria apelo comercial em outro local. ''Sempre que passo por aqui, acabo parando para comprar alguma coisa. Acho que é assim com a maioria. Ninguém iria a um lugar especificamente para comprar artesanato'', analisa.
A estudante Isabela Palomares, 18 anos, não concorda. ''Se fosse num lugar central, fechado, a gente ficaria mais confortável, não passaria frio'', diz. Já a arquiteta Nélida Gouveia acredita que o comércio tira a identidade da praça, uma vez que o local tem uma função social clara: a de proporcionar lazer e descanso. ''Seria interessante e adequado que eles fossem para um terreno ao ar livre'', sugere.


