Sai acordo sobre a Fazenda 7 Mil
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terça-feira, 29 de setembro de 1998
Maurício Borges 
O superintende do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná, Petrus Emile Abi-Abib, anunciou o fechamento de acordo com representantes do propritário da Fazenda 7 Mil, Flávio Pinho de Almeida, e líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A 7 Mil, como é conhecida, na verdade envolve duas áreas formadas pelas fazendas Corumbataí e Canadá, que totalizam cerca de 14 mil hectares de terras. As duas propriedades ocupam partes dos municípios de Ivaiporã, Jardim Alegre e Godoy Moreira, na região do Vale do Ivaí.
Pelo acordo fechado na segunda-feira, o Incra realizará nova vistoria na área e fará a avaliação dos imóveis. A primeira vistoria na 7 Mil foi feita em novembro de 1996. Desse procedimento e principalmente da avaliação deverá ser definida a desapropriação visando criar o assentamento. Atualmente, cerca de 1.200 famílias estão acampadas na área.
Denúncia Expulso da Fazenda 7 Mil por líderes do acampamento, o lavrador João Alves de Oliveira, 31 anos, resolveu denunciar os ex-companheiros pelo abate de dezenas de cabeças de gado da área invadida. Ele relatou ao delegado de Arapuã, a 140 quilômetros ao sul de Apucarana, que os sem-terra vendiam a carne fora da fazenda e até chegaram a doar quatro bois para uma festa de um candidato a deputado estadual apoiado pelo movimento, realizada na semana passada em Pitanga.
Segundo o suplente de delegado de Arapuã, Paulo Bueno, João Alves de Oliveira foi entregue amarrado à Polícia Militar, na porteira principal da fazenda, na noite de segunda-feira. Líderes do acampamento justificaram que ele estava sendo expulso por mau comportamento, embriaguês e agressão à sua companheira, Marizete de Campos, 20 anos.
Marizete foi submetida a exame de lesões corporais no Hospital e Maternidade Ivaiporã. A denúncia contra o lavrador foi registrada em termo circunstanciado e, ao mesmo tempo, já foi marcada a audiência em juízo.
João Alves de Oliveira foi liberado ontem à tarde da cadeia pública de Ivaiporã, mas antes disso confirmou em declaração à polícia várias denúncias feitas contra os sem-terra.
De acordo com ele, o acampamento é dividido em 29 grupos de 20 famílias cada, que abatiam bois todos dias. Os abates só foram paralisados nos últimos 10 dias, após um acordo que os sem-terra firmaram com o gerente da fazenda.
Na denúncia relatada ao suplente de delegado, o sem-terra expulso contou ainda que nos últimos dias só foi autorizado um abate de 4 cabeças. A carne foi levada pessoalmente pelos líderes do acampamento, Vilmar, João, Pombo e Cardoso, para uma festa de campanha de um candidato a deputado estadual, em Pitanga, narrou Oliveira.
A Folha não conseguiu ouvir ontem os coordenadores do acampamento e nem o advogado Elso Bittencourt, que representa o MST em Ivaiporã e nos municípios do Vale do Ivaí. A secretária do advogado informou que ele estava em Curitiba.
Jardim Alegre Na delegacia de Jardim Alegre, o delegado João Batista do Prado registrou na sexta-feira uma queixa dos proprietários da Fazenda Santana, vizinha da 7 Mil, dando conta de que sete bois foram abatidos no pasto e outros feridos à tiros. A denúncia foi confirmada por policiais militares que estiveram no local e encontraram cabeças, patas e vísceras dos animais abatidos.
A princípio, os donos da Fazenda Santana suspeitaram dos sem-terra, pelo fato do acampamento estar próximo da área de pastagens da propriedade. Procurados pela polícia, líderes do acampamento negaram de forma veemente a acusação, argumentando que pessoas inescrupulosas estão se aproveitando das circunstâncias para abater e furtar gado, atribuindo a responsabilidade aos integrantes do MST.


