O testamento de honra dos herdeiros do Paiol de Telha não deixa Domingos Gonçalves dos Santos, 75 anos, descansar. Um dos líderes quilombola, ele comandou invasões às terras expropriadas, mas acabou morando de favor num assentamento do Incra. Hoje, carrega nos braços o tataraneto, a esperança de tomar posse definitiva da herança dos escravos.
''A vontade de voltar para a invernada ainda é a mesma. Nos tiraram de lá e nos trouxeram para cá, onde vivo sem nada. Moro aqui porque me deram um canto. Dizem que somos aposentados e, por isso, não temos direito nem a um pedaço de chão da área do Incra'', conta Domingos no terreiro da casa, que um dos assentados deixou que construísse em seu lote.
A afirmação é tão profunda como se fosse uma vala aberta no quintal do herdeiro e de sua esposa, Anália Gonçalves dos Santos, 75 anos, onde o casal não consegue sepultar a dívida que a história tem com o seu povo.
A cada légua de anos em que se arrasta o processo de expropriação, uma cruz nova é erguida por um fato histórico no coração da comunidade remanescente de escravos.
''Estávamos morando nas favelas de Guarapuava, onde passávamos de tudo, menos fome porque trabalhávamos de dia para comer à noite, abrindo valetas'', lembra Domingos, acrescentando que a esposa também ajudava nessa empreitada.
Em 1994, alguns descendentes entraram com representação na Procuradoria Geral da República no Paraná que, ignorando a grilagem das terras, considerou que os possíveis crimes contra os herdeiros tinham prescrito.
Tentando fazer justiça com o próprio braço, Domingo lidera um grupo de herdeiros que acomparam na área da invernada, em 1996. ''Levamos as crianças e ficamos acampados em barracas de lona. Em 1997 voltamos com um grupo maior, permanecendo 16 meses no barranco da fazenda'', conta Domingos.
Na primeira tentativa, os herdeiros foram expulsos pela polícia, com a participação de seguranças da cooperativa fundada por alemães. O acompamento seguinte foi sucedido pela reintegração de posse da área.
O coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dionísio Vandressen, lembra que, no período de mais de um ano em que ficaram acampados no barranco, os herdeiros eram vigiados por seguranças armados em uma guarita, que ficava a uns 50 metros dos barracos. ''Nessa época, quando alguém se destacava no processo de reivindicação da terra, acaba sofrendo algum atentado'', ilustra, Vandressen.
Com a repercussão internacional da última invasão da área disputada, o Incra assentou os negros na região da Colônia Socorro, a 26 quilômetros de Guarapuava.
''Eles (o Incra) desapropriaram uma fazenda e conseguiram esconder o problema. Tiraram os negros do barranco e limparam as terras. Colocaram as coisas embaixo do tapete'', aponta Vandressen, lembrando que os herdeiros de dona Balbina Francisca Siqueira se organizaram, em 1997, ao redor da Associação Heleodoro - Invernada Paiol de Telha, fortalecendo o movimento pela volta à invernada.
O Núcleo de Estudos Sobre a Identidade e Relações Interétnicas da Universidade Federal de Santa Catarina (NUER/UFSC), através da professora Miriam Furtado Hartung, atendeu ao pedido da comunidade negra e elaborou um laudo antropológico sobre o Paiol de Telha.
O laudo é um instrumento importante no processo de certificação da comunidade quilombola e poderá tirar da vala rasa aberta pela expropriação os indícios históricos, que comprovam que os herdeiros da fazendeira são remanescentes de escravos.
Assentados como sem-terra no Paiol de Telha, alguns herdeiros venderam a área e deixaram a região não se adaptando às terras pouco produtivas.
Porém, as relações de parentesco e compadrio da invernada - laços fundamentais para a sobrevivência do grupo - não foram ignoradas pelos descendentes assentados ou que ainda vivem em favelas da região de Guarapuava, incluindo os agregados, a exemplo de Dilvo Deque, 35 anos.
O rapaz se juntou ao grupo na invasão às terras herdadas. A aliança se concretizou ao decidir morar com a filha do velho Domingos Gonçalves dos Santos, Maria da Luz dos Santos, 39 anos. ''Trabalhava como segurança numa fazenda, quando me convidaram para ir para o barranco. Então, fiquei com a Maria. Graças a Deus, o relaciomento deu certo. Lá eu morei cinco meses e aqui no assentamento já estamos há nove anos'', lembra Dilvo, enquanto espanta uma galinha de dentro de casa, acomodando-se à situação. Atualmente, o rapaz trabalha em propriedades da região para ganhar R$ 15,00 por dia.
As 64 famílias assentadas na área desapropriada teriam recebido R$ 9,5 mil de financiamento. Hoje, restaram cerca de 30 famílias remanescentes dos herdeiros da invernada na área desapropriada pelo Incra.
''O total desse dinheiro não chegou às nossas mãos, sendo assumido por um técnico agrícola, que não repassou para nós. Eu peguei somente R$ 2 mil do primeiro investimento que saiu. Ainda tenho lembrança, já que comprei três vaquinhas'', conta Junir Dias de Campos, 58 anos, que é casado com a filha de um dos herdeiros da invernada, acrescentando que os assentados ainda não conseguiram pagar os financiamentos.
''Quando o milho embonecou, a geada pegou tudo. Agora, há dois anos não temos financiamentos'', lamenta Junir. ''Uma coisa boa aqui é a solidariedade'', interfere Luiz Carlos Soares da Cruz, 34 anos, um dos descendentes dos escravos, presidente do Conselho da Quilombola.
A afirmação é comprovada ao acompanharmos a história de outro assentado. ''Passamos bastante necessidade. Estamos com um campo de terra e não chegou ajuda para a lavoura. Até já passou o tempo de plantar. Estou sobrevivendo porque meus cunhados me ajudam bastante. A gente planta. Mas só com a planta não consegue sobreviver. Tenho sete filhos, sendo dois ainda pequenos e seis netos. Os outros filhos estão fora. Gostaria de tê-los perto de mim'', lembra Junir, com a saudade batendo à porta ao falar sobre o filho Henrique que conseguiu formar em Agronomia e que se mudou para o Rio Grande do Sul (RS), buscando melhores oportunidades, que a dos ancestrais.
Ao fugir com a família da Invernada Paiol de Telha com um ano de idade não dá para afirmar que Luiz Carlos se recorde de muita coisa, mas ele traz a memória genética do pai Sebastião Soares da Cruz, que herdou dos ancestrais escravos a terra para onde o clamor de liberdade quer voltar.
''A nossa luta é para reconquistar a área e conseguir renogociar a nossas dívidas, que chegam a R$ 20 mil'', destaca Luiz Carlos.
Parte dessas dívidas é referente aos R$ 1.350,00 por ano, que os assentados deveriam pagar pelo área desapropriada pelo Incra, onde as famílias plantam milho, feijão e criam alguns animais.
No assentamento também vivem 96 crianças que frequentam a escola na Colônia Vitória, a 18 quilômetros. Os jovens se inspiram nas novas lideranças da quilombola, que representam um fôlego de força que ajuda o seo Domingos Gonçalves dos Santos a sustentar o tataraneto no colo, acreditando que um dia o testamento dos herdeiros escravos não será somente um grito abafado de saudade ou uma lembrança das cruzes sobre as valas abertas da injustiça.

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