Nenhum dos descendentes dos escravos de dona Balbina Francisca Siqueira, que herdaram 3.600 alqueires da fazendeira, sabe ao certo se os ancestrais falavam algum dialeto africano. Porém, se transformaram quase numa lenda as conversas, sempre às escondidas e em uma língua estranha, entre os adultos da Invernada Paiol de Telha.
São traços perdidos da cultura dos quilombolas, que incluem palavras como ''pindocar'', verbo utilizado para designar a ação de torrar o milho ou fazer a farinha de mandioca.
Com a certificação da Fundação Palmares considerando o Paiol de Telha uma comunidade remanescente de escravos, a herança étnica dos mais jovens não está apenas nos cabelos duros, como também no desejo de voltar para a terra dos ancestrais.
Os irmãos Leonardo Camargo Soares da Cruz, 18 anos e Isabela Patrícia Camargo Soares da Cruz, 15 anos, são filhos de Luiz Carlos Soares da Cruz, presidente do Conselho da Quilombola. Ele estava no Mato Grosso quando soube do ''levante'' dos parentes herdeiros em Guarapuava, comandados por Domingos Gonçalves dos Santos, que conhecemos na matéria anterior.
Como o irmão, Valter Gonçalves Soares, 37 anos, o rapaz tinha deixado a região e decidiu voltar ao saber que a comunidade negra estava se organizando.
Atualmente a família mora no assentamento Paiol de Telha, na Colônia Socorro. A irmã de Luiz Carlos e Valter, a professora aposentada Ana Maria Santos da Cruz, 56 anos, evoca o orgulho dos ancestrais ao afirmar ser neta de Manoel Soares da Cruz, filho de Manoel Ferreira, herdeiro da dona Balbina Francisca Siqueira.
Luiz Carlos, Valter e Ana Maria representam o poder de resistência e estão se tornando exemplos de liderança, sendo imitados por jovens, como Leonardo e Isabela Patrícia.
Porém, a distância até a posse definitiva da invernada tem pelo caminho ainda uma longa disputa judicial.
Em 1998, a Associação Heleodoro - Invernada Paiol de Telha, criada para defender os direitos dos herdeiros, solicitou audiência pública para abertura de inquérito cível na Procuradoria da 6 Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal. O órgão setorial é responsável pela coordenação, integração e revisão do exercício funcional dos procuradores da república, nos termos relativos aos povos indígenas e outras minorias étnicas.
Somente em 2000 o Ministério Público Federal da 6 Câmara solicitou à Procuradoria do Estado do Paraná o processo de usucapião movido contra os descendentes dos escravos pela Cooperativa Agrária Mista Entre Rios.
O órgão ainda requereu do Incra e o Ministério da Reforma Agrária o levantamento da cadeia de domínio da área, sendo que o instituto não teria fornecido as informações. A 6 Câmara acabou reconhecendo as irregularidades constitutivas do processo das terras da Invernada Paiol de Telha.
Quatro anos depois, o procurador da República de Guarapuava, Pedro Paulo Reinaldin, determinou o arquivamento dos autos por não vislumbrar solução jurídica, devendo a comunidade Paiol de Telha lutar por seus direitos no campo político.
No mesmo ano, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Ministério Público Federal e um grupo de juristas decidiram estudar minunciosamente o processo de usucapião movido pela cooperativa, apontando diversas irregularidades. Em 2004, a Procuradoria Federal da Fundação Palmares reconhece os fatos da expropriação da comunidade negra, constatando que o processo contém várias irregularidades.
Uma das discrepâncias apontadas é que nenhum descendente foi citado no processo de usucapição. A alegação foi de que os herdeiros dos descendentes eram sucessores desconhecidos e residentes em lugares incertos e não sabidos.
A cooperativa apresentou registros de escrituras dos herdeiros, justificando a posse e a transferência dos direitos hereditários. Surge uma pergunta: como os negros assinariam o documento de transferência se eram analfabetos? Sem falar na cláusula do testamento de Balbina Francisca Siqueira determinar a inalienabilidade das terras do Paiol de Telha.
''Foi por constatar tantos erros no processo que os negros acharam que não teria jeito e, por isso, em 1996, ocuparam a propriedade. Eles diziam que estavam passando fome, destaca o coordenador da CPT do Paraná, Dionísio Vandressen.
Finalmente, no dia 28 de setembro, a Fundação Palmares fez a entrega oficial da certificação, considerando a Comunidade Paiol de Telha uma quilombola.
Então, numa audiência no Incra, em Curitiba, os negros oficializaram o pedido de estudo científico para o reconhecimento do território. ''Abrimos o processo de reconhecimento e titulação da área. O processo está sendo autuado e, a partir daí, começaremos o trabalho de campo. Precisamos de um laudo técnico sobre o Paiol de Telha, que inclui estudos antropológicos, que ajudarão a caracterizar a comunidade como remanescente de escravos'', afirma o assistente técnico do Programa de Reconhecimento e Titulação de Territórios Remanescentes de Quilombos no Paraná, Luasses Gonçalves dos Santos.
Ele explica que para a elaboração do laudo, o Incra precisa estabelecer convênios com universidades e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA).
''O Incra não tem antropólogos. Existe um convêncio nacional a ser estabelecido com a ABA, mas estamos nos adiantando para firmar um acordo extra-nacional para atender ao Paiol de Telha'', destaca Santos.
O técnico do Incra acredita que o processo de reconhecimento de posse das terras reivindicadas pelos negros se arraste ainda por alguns anos.
''Após o laudo, entraremos na fase de notificação dos ocupantes, que terão um prazo para apresentação de defesa. Creio que a conclusão do processo será um pouco demorada, sendo, a partir daí, um responsabilidade de âmbito judicial'', aponta o técnico.
Santos acrescenta que a Fundação Palmares já emitiu nove certificados, reconhecendo comunidades quilombolas no Paraná.
''Caberá a essas comunidades decidir, se houver necessidade, se entram ou não com pedidos para reaver os territórios. Esse reconhecimento para remanescentes de escravos é algo muito novo. Tínhamos conhecimento somente de uma comunidade, que é o Paiol de Telha. Em 1998 foi elaborado um projeto de assentamento, que na época foi considerado a melhor solução para o conflito na região. Hoje sabemos que não foi o melhor caminho. Estamos tentando corrigir esse erro histórico ao reconhecermos a comunidade quilombola'', destaca Santos, acrescentando que o Incra, com a CPT está tentando ajudar a mudar os ventos dessa saga, resolvendo os problemas imediatos, que afetam os herdeiros da Invernada Paiol de Telha, como a falta de recursos para o plantio, soprando sobre os descendentes um pouco de esperança, depois de décadas de expropriação.
(Você poderá ler as duas primeiras partes da reportagem no site www.bonde.com.br)

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