Desde que se casou, há cinco anos, Maria (nome fictício) não sabe o que é viver sob o mesmo teto que o marido. Aos 18 anos, Daniele enfrentou sozinha uma gestação e hoje cria a filha longe do pai. Adriana, 23 anos, só namorou um homem até hoje, o pai de seu filho, que ela vê apenas uma vez por semana. Estas são histórias de mulheres unidas por uma mesma condição: a de ter os maridos detidos em uma das cadeias de Londrina. São mulheres que aprenderam a pagar com determinação, sacrifícios e fidelidade pelos erros dos companheiros.
Independente do local onde a pena é cumprida, elas refizeram sua rotina para cumprir o ritual de visitá-los semanalmente. ''Na quinta-feira a gente já começa a pensar no que trazer, e não vê a hora de chegar o domingo'', diz Daniele, enquanto espera chegar a hora de entrar na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). A exemplo da maioria das mulheres, ela se diz cansada. ''Não vejo a hora de acabar esta vida. Só quem tem alguém da família preso sabe o que gente passa'', desabafa a jovem, que todos os domingos levanta às 4h30 para preparar a sacola com alimentos e pegar os três ônibus que a conduzem da Zona Norte à Zona Sul da cidade.
Manhã de domingo, as visitantes enfrentam a chuva fina e o frio fora de época, muitas delas com crianças pequenas a tiracolo. ''É uma vida difícil. Além de tudo a gente tem muita despesa, gasto uns R$ 100,00 por semana comprando coisas pra trazer, como cigarro, lanches, passagem de ônibus. E quando dá, deixo algum dinheiro para ele. Tenho que pedir vale no meu trabalho quase toda semana. É um gasto sem volta'', argumenta Adriana, que pensa em mudar de Londrina quando o marido for solto. ''O problema aqui são as companhias. Meu marido trabalhava em um escritório de contabilidade, tinha passado no vestibular, mas se deixou influenciar pelos amigos.''
Já Maria nunca conheceu outra rotina na vida a dois. Casada no papel há um ano, ela já namorava o companheiro quando ele foi preso, há quase nove anos. ''Minha expectativa é que ele saia daqui a uns meses, e que mude de vida. Temos uma filha de seis anos, e para ela está sendo muito difícil enfrentar o preconceito na escola.''
Para visitar o marido logo após o almoço, Maria acorda bem cedo no domingo, vai até a penitenciária pegar uma senha - para depois não precisar ficar muito tempo na fila e comprometer parte da visita -, volta em casa para preparar a sacola de lanches e retorna à penitenciária no início da tarde. A rotina, porém, ainda não a cansou. ''Compensa o sacrifício. Não tenho do que reclamar'', garante Maria, que dribla com jeitinho o ciúme do marido: ''Ele diz que eu não preciso sair para fazer caminhada, que estou bem assim. Eu respondo que o respeito como marido, que ele não precisa exagerar.''
Nos distritos policiais, dia de visita significa longas e demoradas filas na calçada. As mulheres afirmam que é preciso chegar com muitas horas de antecedência para conseguir entrar no prédio assim que abrem os portões. Se não fazem isso, correm risco de só conseguir entrar no meio da tarde, por causa do grande número de mulheres para fazer revista e conferir carteirinha. ''Tem até uma mulher que cobra R$ 10,00 para segurar lugar a noite inteira na fila'', conta uma das mulheres, que pede para não ser identificada.
Ela considera uma ''humilhação'' ter que passar horas a fio em pé na fila, muitas vezes sob sol e chuva. Uma vez por mês as mães podem trazer os filhos, e aí, segundo ela, a cena é ainda pior. ''A gente vê várias crianças dormindo na calçada.'' A humilhação, segundo a visitante, aumenta durante a revista. ''Todas nós, jovens ou velhas, temos que ficar nuas e agachar três vezes sobre um espelho.'' Ao sair da cadeia, porém, ela enfrenta a última situação embaraçosa do dia: ''Lá dentro cheira tão mal que a gente sai com aquele odor impregnado na pele, nas roupas. Quando vou pegar o ônibus, sempre procuro me sentar longe das outras pessoas.''

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