Desde 1996, os ônibus de sacoleiros encontraram uma maneira de se proteger da fiscalização da Receita Federal. Adotaram a velha tática dos caminhoneiros de andar em comboio para evitar os assaltantes. Mas como a lógica da fronteira se inverteu nas duas últimas décadas, a formação dos comboios serve agora para burlar a fiscalização.
Em uma das primeiras vezes que foi formado, asseguram as testemunhas e autoridades, o comboio tomou muitos quilômetros da BR-277, com cerca de 1,5 mil ônibus. A partir daí, alguns fiscais da Receita que se arriscaram e caminharam ao lado da fila foram impiedosamente xingados pelos passageiros com a cabeça para fora da janela - isto porque estavam acompanhados pelos policiais federais. ''Sozinhos eles seriam linchados'', diz um agente da PF. A repressão começava a aprender que o comboio seria uma pedra em seu sapato.
A tática é simples. Circulando próximos, os ônibus tornam impossível uma fiscalização rigorosa e abrangente. Assim garantem que 90% dos veículos cruzem o Bom Jesus normalmente, conforme o acompanhamento da Folha feita no posto durante a tarde da quarta-feira, 15 de dezembro. Mas o motivo mais importante é que o comboio funciona como uma demonstração de força para os sacoleiros.
A mais violenta delas aconteceu em um sábado, 20 de novembro, quando milhares de passageiros promoveram um grande quebra-quebra. Quatro ônibus foram incendiados, outros três depredados e vidraças do prédio do depósito também foram atingidas.
Para conter a revolta, o efetivo reduzido, para uma situação como esta usou bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral. Ninguém foi preso e o setor de inteligência da PF em Foz continua investigando quem seriam os líderes do levante. O inquérito segue sob sigilo. Desde então, o número de policiais e patrulheiros federais foi ampliado, embora eles continuem a usar munição não-letal em suas armas.
O incidente aumentou a tensão dos dois lados. Todas as quartas e sábados, os policiais e os patrulheiros federais monitaram a comunicação por rádio dos sacoleiros e preparam-se, como podem, para a chegada do comboio. Enquanto a impressionante fila vai ocupando as subidas e descidas da 277 e sumindo no horizonte, as expressões das pessoas envolvidas na Operação Cataratas demonstram que a ''guerra fria'' pode esquentar a partir de uma inspeção e de um ''perdimento'', termo usado pela Receita para o ''rapa'' das mercadorias. O medo toma conta dos dois lados.
No último dia 15, a passagem do comboio durou cerca de uma hora e meia. Foram abordados superficialmente cerca de 30 ônibus e 11 deles foram autuados e multados (em cerca de R$ 15 mil, na reincidência o valor sobe para R$ 30 mil) todas as mercadorias foram apreendidas. Os autuados permanecem por algumas horas no pátio do Bom Jesus e depois são removidos até a Eadi Sul, onde estavam recolhidos cerca de 180 deles no dia 16 de dezembro.
Estes ônibus entram para uma espécie de ''lista negra'' da Receita. Suas placas são cadastradas e passam a ser alvos preferencias nas blitze. Se a RF entender que existe um envolvimento destes reincidentes com o contrabando, os ônibus são, enfim, confiscados. Os que estiverem em melhores condições, serão doados à prefeituras mais carentes ou para o transporte escolar ou para transporte de pacientes para centros médicos.
Durante os 45 dias da operação, outros 1,5 mil ônibus foram multados por participarem mais de uma vez de comboios, apontado por uma lei federal como um expediente que caracteriza um embaraço à fiscalização da Receita. Este ônibus também figuram num cadastro da RF e correm risco de confisco.
No Bom Jesus, há fardos de papelão esperando a montagem para se tornar caixas vazias. Elas são preparadas por empacotadores terceirizados contratados pela Receita. Ficam dispostas ao longo da plataformas do posto e quando são cheias com as mercadorias apreendidas passam a ser símbolos de um drama. Na tarde em que a reportagem da Folha acompanhou a operação, o Bom Jesus se torna um palco do desespero. É comum a imagem de sacoleiros aos prantos avisando alguém pelo celular sobre o prejuízo que acabaram de sofrer.
Um destes personagens é Sueli Ferreira, 22 anos. Em sua bagagem havia cerca de US$ 1 mil em mercadorias. Rolos de CDs e DVDs virgens, carregadores de pilha, videogames, câmeras digitais, microfones e adaptadores de voltagem saem de suas grandes sacolas. ''Não acho certo fazer o que não pode pela lei. Mas também não acho errado. Não estou fazendo mal a ninguém. Eles só deveriam procurar drogas e armas na bagagem'', diz a jovem desempregada, contratada por um camelô paulistano como laranja. Sueli, moradora do Morumbi, bairro operário de Foz do Iguaçu, resume uma frase sempre usada para a defesa do contrabando-formiguinha. ''E agora que eu faço? Vou ter que fazer um assalto para fazer as compras de Natal'', dispara, de cabeça quente, misturando ironia e revolta.
O motorista Lúcio Mauro Martini, 33 anos, faz o trajeto Santa Rosa (RS)-Foz do Iguaçu há sete anos e já sabe que o posto em Medianeira significa pelo menos uma hora de atraso na viagem. Prefere não se integrar ao comboio porque para ele ''não adianta nada'' porque a abordagem é certa. ''Aqui não tem escapatória''. Ele constata que o rigor na fiscalização tem afugentado os compradores da sua cidade. ''Antes a gente saía em três ônibus. Este ano tenho vindo sozinho'', comparou.
Um colega de Martini, de cerca de 30 anos, também não é atraído pelo comboio. ''Agora, tem esta tal da multa, que acaba não compensando (a infração custa cerca de R$ 5 mil, em alguns casos os passageiros preferem se cotizar e pagar a multa).E tem outra coisa: quem passa no comboio tá passando recibo de criminoso e a gente não faz parte de quadrilha'', explicou o motorista, que duas vezes por semana faz o percurso Pitanga-Foz-Pitanga.
José Antônio de Jesus, 53 anos, da Nogueira Tur, transporta passageiros de Catanduva (SP) e diz que nunca havia sido autuado até aquela tarde. Jesus era o motorista de um dos ônibus recolhidos, onde os passageiros perderam tudo. ''Tá ficando difícil. A coisa tá muito rigorosa''. Segundo o motorista, para muitos ônibus, a participação no comboio é involuntária. ''Temos que sair no horário marcado. Depois que a gente tá na rodovia, não tem como escapar da fila'', defendeu-se.
Um dos passageiros de Catanduva que amargou um prejuízo é um rapaz de 24 anos que faz venda porta-a-porta com produtos comprados em Ciudad del Este. ''Desde os 10 estou nesta vida e já perdi as mercadorias várias vezes. Faz parte do jogo''. Ele não quis revelar o quanto perdeu, mas garantiu que estaria na estrada na semana seguinte. ''Tenho que trazer os brinquedos para os meus clientes'', justificou.
Para não ter o mesmo fim dos sacoleiros de Catanduva, alguns ônibus fazem um desvio de rota para evitar o Bom Jesus. Saem da BR-277 em São Miguel do Iguaçu, acessam a PR-495 e passam por Missal e voltam à rodovia federal por uma estrada vicinal no município de Matelândia. A PRF já realizou blitz na entrada de São Miguel do Iguaçu para evitar o desvio mas agora vem se concentrando em blitz em um auto posto do distrito de Vila Ipiranga. Em Missal, a passagem dos ônibus brancos já não surpreende ninguém, como constatou a reportagem da Folha.
Os comboios da informalidade também criam empregos indiretos. São a alegria de Adenílton da Silva Monteiro e Djair Lopes Trindade, ambos de 17 anos. Em dia de comboio, eles trabalham por cerca de duas horas e recebem R$ 50,00 cada um. Andam no acostamento ou na faixa divisória da pista com latinhas de alumínio vazias na mão e tem muitos clientes na fila praticamente parada. ''A gente até já conhece o pessoal'', conta Monteiro. Vendem cerveja (o produto mais vendido), refrigerante e água mineral. Em média, os sacoleiros compram dos garotos moradores da periferia de Medianeira, há cinco quilômetros do posto 300 unidades em um final da tarde. ''No inverno, a gente vendia muito doce'', lembra Trindade.
E não são só os garotos, contratados por um atento patrão do outro lado da pista (ele cuida da temperatura do estoque dentro do porta mala de um carro), que ganham a vida com os milhares de sacoleiros ao longo da BR-277. Quando o comboio passa e o movimento no Bom Jesus volta ao normal, é possível ver senhoras andando com dificuldade em direção a Medianeira. Sem medo de serem fiscalizadas, eles carregam isopores, assadeiras e tabuleiros, conversando tranquilamente, torcendo para que as filas de ônibus nunca deixam de existir. Nem a renda extra que ajuda a sustentar as suas famílias.

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