SACOLEIROS X FISCALIZAÇÃO - parte 2 - Comboios e rotas alternativas desafiam a lei
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
Lúcio Flávio Moura Fotos: Sérgio Ranalli<br> Enviados a Foz do Iguaçu 
O pátio do Auto Posto Paradão, à margem da BR-277, na saída de Foz do Iguaçu, vai se transformando em um grande estacionamento tomado por ônibus brancos o tom padrão é para confundir o ''inimigo''.
Nos veículos, imagens religiosas e frases que misturam valentia, humor e misticismo como ''Tenta a sorte'', ''Deus é fiel'', ''Eis o relâmpago'', ''Vem comigo loco'', ''Muitos me seguem mas só Deus me acompanha'' e ''Tira o zóio, ladrão''. Na verdade, são manifestações de quem precisa de proteção para resistir às muitas horas de expectativas que estão por vir.
Com a ajuda de rádio-transmissores, os motoristas vão organizando a grande fila que vai tomar a pista logo depois de São Miguel do Iguaçu. Os ônibus partem de hotéis da Vila Portes, o bairro próximo a Ponte da Amizade, ou do centro da cidade. Pouco antes, haviam sido carregados. A carga cruza a fronteira dentro de vans ou táxi que atravessam a ponte durante todo o dia, sem praticamente serem incomodados pelos fiscais da aduana brasileira.
Como não podem trafegar no caótico trânsito de Ciudad del Este, os ônibus só são carregados pouco antes da viagem, nos hotéis-depósitos, que permitem a lotação completa de quartos com caixas (o produto mais comum é cigarro) e até a utilização dos corredores, nos dias mais movimentados.
Os cargueiros improvisados aguardam a chegada das vans nos estacionamentos destes estabelecimentos, muitos já autuados (um deles, com os quartos cheios de caixas de cigarro, foi multado este ano em R$ 400 mil, ou R$ 2,00 por maço) pela Receita Federal por favorecimento ao contrabando.
São quase 17 horas e os veículos vão chegando visivelmente pesados. Dentro deles, nem os motoristas nem os passageiros estão tranquilos. O cansaço de muitas horas carregando caixas ou as grandes sacolas coloridas em xadrez não é nem sentido quando outras preocupações passam pela cabeça de cada um deles.
Além dos muitos pontos perigosos ou de acidentes graves ou de assaltos do longo percurso de volta para casa, há ainda um galpão há cerca de 50 quilômetros dali onde tudo o que foi comprado pode ser perdido em poucos minutos.
O lugar maldito para os sacoleiros chama-se Posto de Fiscalização Bom Jesus, na BR-277, em Medianeira. Reformado no ano passado, o local é uma espécie de túnel de controle, uma tentativa de deter tudo aquilo que não foi possível barrar na fronteira.
É uma construção moderna: um galpão alto, de cerca de seis metros de altura, coberto por um teto metálico, com dois portões de aço nas entradas, uma guarita-mirante (de cinco metros de altura), um grande pátio com capacidade para 60 ônibus, um depósito com capacidade para 40 toneladas e uma área administrativa com instalações razoáveis.
Quem passa por este posto, um dos únicos símbolos da força da legalidade em uma região tão tolerante às atividades fora-da-lei, sabe que o pior já passou. A partir dali, os riscos de ''perder tudo'' são insignificantes, dizem os sacoleiros.
O ''desvio'' da BR-277 tem 10 metros de largura e 35 metros de extensão. No Bom Jesus, só não passam os caminhões. Eles seguem reto, sob os olhos atentos dos patrulheiros da Polícia Rodoviária Federal. Segundo a RF, o local não é adequado para fiscalizar cargas comuns. Já todos os utilitários, os carros de passeio, os ônibus de linha e os de ''turismo'' trafegam tensos no ''gargalo da lei''.
Em uma quarta-feira, dia nobre no comércio paraguaio, o movimento chega a 300 veículos por hora. Os carros de passeio e os utilitários recebem um tratamento diferenciado dos ônibus. Também são alvo da fiscalização, mas só ''caem'' se não tiverem muita sorte. As abordagens são aleatórias, em uma amostragem de aproximadamente 10%.
Nos dois últimos anos, os ônibus de linha passaram a ser mais visados na região da fronteira e no Bom Jesus não há um deles que não seja parado. O principal objetivo dos fiscais é encontrar droga. Traficantes usam ''laranjas'' para assumir o pacote de entorpecente até Cascavel, Maringá, Londrina, Curitiba e São Paulo. É mais comum flagrantes com maconha do Paraguai e lança-perfume (vendido legalmente na Argentina), mas é crescente o volume de cocaína, pasta-base e crack apreendidas, o que acabou chamando a atenção das autoridades. O foco, entretanto, está mesmo nos ônibus que partem no final da tarde desde o Paradão.
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