SACOLEIROS X FISCALIZAÇÃO - final
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
Lúcio Flávio Moura Fotos: Sérgio Ranalli<br> Enviados a Foz do Iguaçu 
Foz do Iguaçu - Uma van cruza a Ponte da Amizade abarrotada de caixas com cigarro. No volante, um rapazinho ainda sem idade para ter habilitação de motorista. Logo atrás, um outro carro faz a ''segurança'' da carga. O bando que ocupa o veículo é formado por adolescentes. Nas mãos infanto-juvenis, pistolas 9 milímetros e 357, armamento que equipa o efetivo da Polícia Federal. Um dos garotos armados tem apenas 10 anos.
Os personagens reais poderiam figurar em uma cena da hipotética sequência de Cidade de Deus, obra-prima do cineasta Fernando Meirelles, na Tríplice Fronteira. Em Foz do Iguaçu, os garotos armados que chocariam o expectador no cinema podem ser vistos à luz do dia.
Quem conta a história é o Delegado Especial do Adolescente em Foz do Iguaçu, Marcos Fernando da Silva Fontes. Ele lembra que o envolvimento de crianças armadas prática consagrada das quadrilhas em busca da impunidade é um dos exemplos de organização que aproximam o esquema de contrabando de cigarro do tráfico de drogas.
''Acreditamos que as armas não são reservadas para confrontos com a polícia. Quando eles são abordados, não reagem. As armas são para demonstrar força às quadrilhas concorrentes'', explica Fontes.
Segundo as autoridades, a idéia é reforçada pelos constantes conflitos entre os contrabandistas, tiroteios que muitas vezes acabam em morte, conforme fontes da Polícia Civil (não há um estudo pronto na 6 SDP sobre a relação destes confrontos com o alto número de assassinatos na cidade, em 2003 Foz registrou 245 homicídios). A Folha apurou que as forças de repressão estão unidas na elaboração de um dossiê para tentar entender o perfil e o mapa de atuação destas quadrilhas.
Os confrontos seriam motivados pelas disputas por pontos de carga e descarga como se fossem bocas-de-fumo, os pivôs das batalhas entre os traficantes. A relação não é apenas nos modos de operação das quadrilhas. As duas atividades ilícitas estão usando a mesma logística para escoar seus produtos.
Produzido no Paraguai país que consome anualmente 4 bilhões e produz 55 bilhões de unidades, o excedente é consumido no Brasil, segundo afirmações da própria cúpula da Receita o cigarro entra sem pagar impostos através de uma esquema que envolve, além dos laranjas e dos olheiros, embarcações fretadas, um pequeno exército com armas de grosso calibre (até o assustador fuzil AR-15) que monitoram a fiscalização na margem brasileira do Rio Paraná e portos clandestinos em toda a extensão do reservatório da Hidrelétrica de Itaipu.
''Estas quadrilhas chegam a envolver até 50 pessoas'', conta Paulo Roberto Sausedo, atual investigador-chefe da Delegacia de Furtos e Roubos, e que já trabalhou na divisão de homicídios da 6 Subdivisão Policial.
A Polícia Federal diverge da Receita em relação a importância do contrabando-formiguinha no volume global dos cigarros que atravessam a fronteira. ''Na ponte, passa apenas de 10% do cigarro'', calcula Carlos Trematore, da RF, coordenador da Operação Cataratas. Para o delegado da PF, Paulo Renato Herrera, a Ponte da Amizade é, sim, um corredor importante para o contrabando de cigarro.
As investigações da PF seguem em sigilo, mas os agentes estão convencidos que o volume crescente de flagrante de cocaína e crack em ônibus cargueiros demonstram que, como já correm risco de perder a carga em um blitz, os cigarreiros estão se arriscando por uma mercadoria mais valiosa, de ganho mais rápido.
A droga está normalmente no meio das cerca de 70 mil caixas de cigarro que enchem os ônibus brancos todas as semanas, rumo aos principais mercados consumidores do Centro-Sul. Cada caixa tem 50 pacotes de 10 maços. ''Eles tiram um pacote do meio da caixa, colocam a droga no espaço e vedam o papelão como se a embalagem não tivesse sido aberta'', disse um fiscal da RF, que trabalha no Posto de Fiscalização Bom Jesus, em Medianeira.


