Sacoleiro ameaça suicídio durante blitz
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quinta-feira, 13 de agosto de 1998
Lucinéia Parra 
A Receita Federal apreendeu na madrugada de ontem sete ônibus de turismo que voltavam do Paraguai com mercadorias que extrapolavam o valor da cota mínima de US$ 150 por passageiro. A fiscalização da RF foi feita nas proximidades de Peabiru (12 quilômetros ao norte de Campo Mourão), mas os ônibus foram vistoriados no pátio do órgão, em Maringá. Durante a fiscalização, o passageiro Norberto Ferreira, 40 anos, tentou se suicidar fazendo um corte com faca no pescoço. Os fiscais da RF só liberaram o ônibus em que Ferreira estava depois de verificar os ferimentos do passageiro.
Ferreira foi atendido no Hospital Pronto Socorro de Campo Mourão por volta das 6 horas e liberado às 7h30. O fiscal da RF, Oscar Yoshimoto, entrou no ônibus para comprovar a tentativa de suicídio. Ele disse à Folha que um homem estava no banheiro de um ônibus com os pulsos feridos. Mas ele estava bem, conversando normalmente. Conforme Yoshimoto, o ônibus foi liberado para levar o passageiro até o hospital de Campo Mourão.
Marcos NegriniRevoltaA sacoleira Nanci Helena estava desolada: Não mexemos com drogasA comprista Nanci Helena Daguer, 51 anos, também teria tentado se matar usando uma faca, mas teria sido impedida pelos demais passageiros. Ela estava revoltada com a fiscalização e acusou os fiscais da receita de não atuar com imparcialidade. Aqui ninguém mexe com droga. A gente só compra produtos que não fazem mal a ninguém e este é o nosso meio de sobrevivência, disse. Segundo ela, durante a abordagem dos fiscais, outros ônibus também foram vistoriados, mas liberados em seguida sem o mesmo rigor da fiscalização aplicada aos sete ônibus apreendidos. Tereza Viana, 50 anos, também passou mal durante a fiscalização e teve que ser levada para um posto de pronto atendimento em Maringá.
Quando ela voltou para o pátio da RF, Tereza teve várias crises de choro ao falar sobre a apreensão das mercadorias. É a segunda vez que os fiscais pegam toda minha mercadoria em duas semanas. Na semana passada eles já tinha apreendido as minhas mercadorias e agora de novo. Eles estão pensando o quê? Acham que está fácil arrumar emprego e ganhar dinheiro para sobreviver?, reclamou. A maior parte da mercadoria comprada por Tereza é cigarro.
O passageiro Renato Koenigkam Pereira, 23 anos, também reclamou da fiscalização da RF. Segundo ele, durante a abordagem havia mais de 50 ônibus, mas só sete foram apreendidos. Os fiscais mal abriram o bagageiro dos ônibus maiores e já liberavam. O nosso eles olharam e ainda trouxeram para Maringá, tratando a gente como bandidos, afirmou.
De acordo com o chefe de fiscalização da RF em Maringá Júlio César de Oliveira os fiscais apreendem os ônibus por amostragem. Ele disse que em uma rápida fiscalização nos bagageiros dos ônibus é possível detectar se há excesso de mercadorias ou não.
Oliveira disse que o desespero dos passageiros é compreensível porque eles acabam perdendo toda mercadoria que está acima da cota. No desespero, os passageiros nos criticam e tentam de tudo para impedir a apreensão das mercadorias, mas é o nosso trabalho fiscalizar, disse. A maior parte das mercadorias apreendidas é cigarro e equipamentos de informática. Os sete ônibus são de cidades do interior de São Paulo.


