Assim como mistura na cuia de chimarrão as raízes, evocando o poder da cura, o mestiço caingangue Ido Galvão, 39 anos, tempera a tradição índigena com a gaúcha, lembrando o herói dos Pampas, o general Flores da Cunha, com quem o pai, um caboclo - pêlo-duro como se diz no Sul - ''amansava'' índios até ser laçado por uma nativa. Desse encontro na fronteira com a Argentina, nasceu o raizeiro, que traz dos ancestrais a sabedoria de tratar doenças com ervas medicinais.
Os dentes reluzem ao sol, mas para não engordar os olhos dos que pensam que tudo o que reluz é ouro, Galvão avisa logo que tal brilho é arte de um protético gaúcho, que fez para o mestiço uma ponte fixa de um material dourado.
Viajando num veículo utilitário com a mulher, a índia caingangue Alzira Sales, 23 anos, e o filho Luciano, três anos, Galvão já vendeu seus remédios em Brasília (DF) e no Mato Grosso (MT). Em cada parada, aproveita para ensinar aos índios locais os segredos das ervas que curam.
O mestiço vive na Reserva de Miraguai na cidade fronteiriça de Tenente Portela, uma área de 26 mil hectares, habitada por mais de 4 mil famílias, sendo 46 guaranis e 15 de índios sabinos. ''São índios de pele branca e olho azul'', conta Galvão, ampliando as suas histórias com o romance da mãe índia com o pai caboclo.
''Meu pai andava com o general por esse mundão de meu Deus. Naquele tempo não existia casamento. Índio se ajuntava e meus pais foram viver juntos'', lembra o raizeiro, acrescentando que o pai morreu com mais de 90 anos de idade. Aos 80 anos, a mãe ainda vive na reserva.
Em Londrina, a família está alojada no Centro Cultural Caigangue (às margens da Avenida 10 de Dezembro), onde está vendendo seus produtos. É das sacolas cheias de raízes que brota a tradição índigena da cura pelas plantas.
''Aprendi a fazer remédios com o meu pai, que recebeu de herança o conhecimento dos meus avós maternos. Desde criança ajudava a catar raízes nos matos e a ferver as ervas para os preparados'', conta o raizeiro. Uma tradição que incorporou a ginkgo-biloba, um dos fitoterápicos mais populares, utilizado pela medicina chinesa há mais de 4 mil anos. ''É uma planta que gosta de temperaturas baixas. Lá no Sul a gente encontra, mas aqui no Norte só consegui achar duas árvores em São Miguel do Arcanjo, interior de São Paulo. É muito boa para melhorar a circulação sanguinea'', afirma, mostrando um dos pacotes de ervas, que vende em média pelo preço de R$ 10,00.
O viagra natural receitado pelo índio é a batata-de-negro, que deve ser preparada em um litro de vinho, com um prego dentro, que é para soltar o ferro. ''Só um cálice à noite é suficiente'', garante Galvão. Já o cipó-azogue, ele garante ser um santo remédio para o reumatismo.
Os preparados com plantas têm uma ciência que precisa ser obedecida. No caso do cipó-macaco não adianta ferver água para preparar um chá. O índio ensina: ''É preciso colocar quatro pedacinhos num copo d'água e deixar de um dia para o outro. A planta solta um óleo, que é bom para curar diabetes. Não adianta tratar a doença. É preciso curar o pâncreas''.
Na região das Missões (RS), Galvão diz que é encontrado o maracujá-bravo, que acaba com qualquer esgotamento físico. Dores podem ser curadas com unha-de-gato, um poderoso anestésico atestado pelo raizeiro. Se o problema é aquela coceirinha chata, a sugestão do índio é aplicar após o banho um pouco de chá de suma-roxo, uma erva que acaba com as micoses de pele.
Galvão deixou de trazer para Londrina a pururuca, planta que os índios mais velhos utilizam para combater feridas provocadas por mordidas de cobras e que afirma poder tratar alguns tipos de câncer de pele. A casca da planta serve para fazer uma espécie de farinha, que pode ser aplicada sobre feridas.
De posse dos conhecimentos ancestrais, Galvão diz que está disposto a curar portadores de psoríase, gratuitamente, afirmando ter tratado um menino em Jacarezinho (cidade pólo/Norte Pioneiro). A receita leva vela, ovo e pitadas de uma sabedoria milenar.

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