RUTH BOLOGNESE
Quem pode, pode
As imagens estão lá, para quem quiser ver. Nunca, nem mesmo nas várias posses da carreira política do chefe do clã, Roberto, a família Requião exibiu tamanha alegria como na última quinta-feira, quando o caçula, Maurício, assumiu a cadeira de conselheiro eterno do Tribunal de Contas do Paraná. Se tamanha satisfação é pelo fato do mais jovem dos irmãos ter, enfim, garantido uma colocação estável, com salário pra lá de R$ 20 mil, ou se por mais uma vitória recheada de polêmica, não se sabe. Mas que os Requiões todos estavam felizes, é indiscutível. E com razão: com Maurício ajeitado no TC, a família pode descansar sossegada no pós 2010, quando o mandato do governador termina, e todos eles terão que deixar as funções públicas que ocuparam nos últimos oito anos. Que venham os tempos fora do poder.
As críticas da imprensa e as reações contrárias que pontificaram nos últimos três meses à indicação do irmão do governador, para ocupar a vaga do conselheiro Henrique Neigboren, não tiraram o fulgor da posse. No fundo, no fundo, só a legitimaram, por conta do contraditório no processo de escolha. Estavam lá, de deputados a futuros colegas do TC, autoridades civis e eclesiásticas e senhoras elegantes, todos aplaudindo o último Requião colocado em cargo oficial e partilhando a alegria familiar. Foi uma cerimônia, no mínimo, emblemática. Mas, na direção contrária daqueles que sempre aplaudem partidariamente a crítica necessária, não apenas contra mais um desmando de um homem verdadeiramente de família como o governador Requião, há que se estender a indignação contra este erro de origem que os políticos conseguiram imprimir ao Tribunal de Contas do Paraná. Um órgão público que, de fato, tem mais é que acertar contas à sociedade que o sustenta do que se apresentar como ''Tribunal''.
Quem não pode...
Desde sempre o Tribunal de Contas foi utilizado pelo governador de plantão para premiar os mais achegados, os parentes, ou aqueles com débitos a cobrar, mais por serviços de vassalagem pessoal do que no cumprimento de função pública, servidora do Estado. Basta analisar os nomes dos nobres conselheiros e muitos auditores para concluir que devem entender tanto de análise de contas públicas quanto o Zeca Pagodinho entende de física quântica. O Tribunal de Contas do Paraná sempre existiu, não para punir desvios da administração pública, mas para servir como o último refúgio aos homens do poder sem futuro, encaixe privilegiado dos enfastiados do Governo que se retira.
Com este prontuário, o TC não deixa espaço para aqueles que entram no órgão pela porta da frente, que querem apenas trabalhar direito. Qualquer processo que venha a ferir a mínima suscetibilidade de alguém mais poderoso, esbarra neste emaranhado de representações de interesses. Ou alguém imagina o simpático Henrique Naigboren reprovando as contas do próprio cunhado, Jaime Lerner? Mesmíssima situação de Maurício Requião diante da prestação de contas do Governo atual. Pode-se alegar, a favor do TC, que existem impedimentos legais e conselheiros-parentes não atuam nas prestações de contas de familiares. Me engana que eu gosto, Cara Pálida! Trata-se de uma alegação tão furada quanto dizer que os deputados que votaram, por unanimidade, para tornar Maurício Requião conselheiro, julgaram a capacidade intelectual e a experiência dele.
...se sacode
Então, quando a imprensa e a oposição criticam a última indicação palaciana para o TC, precisam rever seus conceitos. Em nome da informação imparcial, há que se lembrar ''que é assim porque sempre foi assim'', como diria o matuto de Ariano Suassuna no Auto da Compadecida. A alegria da família Requião, na vitoriosa indicação do caçula como conselheiro do TC, tem razão de ser porque se encaixa perfeitamente naquilo que se chama de privilégios do poder. É como se dissesse, na linha popular e genial de Suassuna, aos 10 milhões de paranaenses: ''Quem pode pode, quem não pode se sacode.'' É hora de aplaudir, Gente, vamos lá! Aplaudir é o que nos sobra, afinal.





