Numa cavalgada pelos caminhos da Granja do Canguiri, residência oficial do governo do Paraná, o governador Requião desabafava com seu amigo e admirador, Carlos Moreira Junior, reitor da UFPR, a ausência de um candidato pra chamar de seu para disputar com Beto Richa a prefeitura de Curitiba. ‘‘E por que você não se candidata, Moreira?’’, sugeriu o governador, num rompante característico. Parecia ainda uma brincadeira, mas a brincadeira virou possibilidade e a possibilidade teve que ser engolida pelo PMDB do Paraná, incapaz de dizer não à ordem unida do líder maior.
  Resultado: entre os 9 candidatos que vão disputar as próximas eleições na Capital, pela segunda vez em 100 anos, um Magnífico Reitor da Federal, a mais antiga do País e a mais tradicional do Paraná, deixa a imponente bata preta drapeada para falar à turma do Hip Hop do Tatuquara, em busca de votos. Antes de Moreira somente Victor Ferreira do Amaral, fundador da UFPR, saiu da reitoria para ser prefeito de Curitiba, senador e vice-governador do Estado. Hoje é nome de hospital.
  Pessoalmente, o Magnífico Reitor atual é uma mistura de Geraldo Alckmin, o já conhecido ‘‘Picolé de Chuchu’’, com o Guido Mantega, o ministro da Fazenda de Lula, o que significa índice de carisma próximo do zero. Politicamente, se movimenta dentro do clube de cobras criadas da política com a mesma ingenuidade teimosa (e perigosíssima) do padre Carli, aquele mesmo que se lançou aos ventos marítimos acreditando que estava seguro pelos fios de nylon atados em balões de festa infantil. Em termos de popularidade, o reitor Moreira tem 1% nas pesquisas e uma fé inabalável no governador Roberto Requião, na máquina eleitoral do PMDB em Curitiba e nos estrategistas do Partido como elementos fundamentais para ajudá-lo a derrubar o prefeito Beto Richa do alto dos seus 70% de aprovação popular.
  Se tivesse um mínimo de sagacidade política, nosso reitor veria que em 30 anos de carreira, o governador Requião só elegeu o candidato favorito dele, Roberto Requião, e os estrategistas do PMDB só ganharam eleições sob o taco de Roberto Requião. E até agora, a menos de três meses da eleição, com uma Olimpíada no meio, a máquina eleitoral do PMDB ainda não conseguiu mostrar para a periferia quem é, o que é e nem de onde vem o reitor da UFPR: quando cumprimenta pessoas pelos bairros de Curitiba elas o chamam de ‘‘Heitor’’ Carlos Moreira.
Entre a academia...
  Mas é quando assume a postura de candidato aguerrido e crítico, condição essencial de quem tem pouco tempo e pouco voto, é que o reitor se fragiliza mais ainda. ‘‘O Beto Richa tem pés de barro: só pintou as três linhas dos radares e trocou calçadas por calçadinhas. Por isso vou ganhar a eleição’’, afirma. Nos últimos 12 meses, quem pisou no barro foi o curitibano, que viveu num canteiro de obras e foi submetido à propaganda maciça da atual gestão. Ao bater de frente neste muro, Moreira mostra a distância entre o homem da academia e o candidato do palanque: faz a crítica pelo avesso, se desmoraliza diante dos eleitores e estende o tapete para o principal adversário tripudiar.
...e o palanque
  Por tudo isso, e vaidade pessoal à parte, não deixa de ser admirável observar este médico de 49 anos, nascido e criado na elite curitibana – os Moreira têm tradição na oftalmologia do Paraná – trocar os corredores da Universidade Federal pelos bairros da cidade. Nosso Magnífico Reitor é, de longe, o candidato que reúne a bagagem intelectual mais sofisticada entre os 9 pretendentes à prefeitura. A presença dele no grupo dos 9 se sobressai pela idade, formação e currículo, o que lhe dá segurança nos debates e credibilidade nas propostas.
  Quando fala do que conhece, a educação, por exemplo, o faz com propriedade. ‘‘A prefeitura comemora o 470º lugar do Brasil no Ideb do MEC obtido pela rede municipal de ensino de Curitiba. Isso é nada em plena era do conhecimento’’, diz. Ou quando aponta o crescimento desordenado e concentrado apenas num lado da cidade. ‘‘Se não houver mudanças, vai virar um caos’’, prevê. Eis aí um belo papel a ser cumprido, o do contraditório com sustância, numa campanha que começou chocha pela grande vantagem do primeiro colocado. E para cumprir este rito, um ensaio para futuras disputas eleitorais, e ter sucesso, o Magnífico Reitor precisa reunir o conhecimento já adquirido com a esperteza da prática política. Fórmula mágica difícil de encontrar, que dirá, exercer.

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