RUTH BOLOGNESE
O direito de beber e matar
Que venham os defensores das liberdades individuais, os juristas e os puristas, mas nosso papel, como pais, mães e responsáveis, é apoiar a Lei de Tolerância Zero, ou Lei Seca, que pune e prende motoristas alcoolizados, qualquer motorista e sob qualquer dose, por mínima que seja. Nenhum cidadão, em sã consciência, aceitaria um médico meio ''tchuco'' por trás do bisturi, um engenheiro tomando cerveja enquanto faz os cálculos do prédio ou um gerente de banco enrolando a língua enquanto soma os rendimentos da poupança. Por que vai aceitar um motorista dirigindo depois de tomar umas e outras?
Já passou da hora do brasileiro aprender que dirigir um carro é uma responsabilidade profissional e pessoal e, no caso de dúvida, é só consultar as estatísticas de mortes e sequelas irreversíveis nas ruas e nas estradas brasileiras causadas por ''falha humana'' de bêbados. Com certeza, 100% dos brasileiros acima de 30 anos das médias e grandes cidades já perdeu um amigo, um parente, quando não o pai ou a mãe, num acidente de carro. Guerra do Vietnã é fichinha.
E a lei de Tolerância Zero para a dobradinha bebida & direção vem no momento em que milhares de novos carros, motos e caminhões saem das montadoras todos os dias, no embalo da economia em crescimento. Conforto, qualidade de vida e melhoria de padrão de vida é direito de todos e se o Zequinha do bairro do Tatuquara conseguiu comprar a moto com que sonhou a vida inteira, por R$ 180 mensais, ponto para o Zequinha. Se a classe média está faturando tanto que se permite ter três ou quatro carros na garagem, ponto para ela.
A função das autoridades é enquadrar os novos milhares de jovens Zequinhas e de recém-aprovados nos vestibulares da vida que começam a trafegar pelas ruas e protegê-los de si mesmos para que não saiam matando ou morrendo. E isso, de imediato, não se ensina com discurso de bom moço, de mãe pedindo ao filhinho que não beba na balada ou de apelos à responsabilidade social: é com lei rígida e punição mesmo. Com suspensão da carteira de habilitação e pronto.
A outra alternativa é esperar os próximos 30 ou 40 anos para que os brasileiros mudem de mentalidade e aprendam a não dirigir em alta velocidade, a não fumar, a não tomar sol depois das 10 horas, a não fazer sexo sem camisinha, a não corromper...
Vá de taxi
Brameiros e cervejeiros em geral, aqueles frequentadores tradicionais dos bares da vida, bradam contra a rigidez da fiscalização e defendem que ninguém vai tomar chá em mesa de boteco nas confraternizações tão ao gosto da nossa alegria e descontração tupiniquins, eternizada nos comerciais de bebidas alcoólicas. É um equívoco. Quem quiser, está livre para se afogar num bom balde de chopp gelado, de manhã, de tarde ou de noite. Só não pode sair dali e sentar no banco do motorista. É simples.
E vamos lá, quem tem dinheiro na carteira para tomar cerveja e comprar carro, não terá dificuldades em pagar um táxi para voltar pra casa. E se a grana estiver curta, ônibus e metrôs estão aí para isso mesmo. Os que criticam a Lei Seca deveriam dar uma olhada na legislação do Japão: lá a punição alcança até mesmo quem fornece a bebida para um causador de acidente, e não estamos falando só de bares e restaurantes, mas dos donos da casa onde se tomou a bebida. É a cumplicidade no crime.
E se a gente pensar um pouco, não dá pra entender, nem aceitar, nem explicar, como é que ainda se debate se postos de gasolina, restaurantes e lanchonetes, localizados à beira das estradas, podem ou não vender bebidas alcoólicas. Não há o menor sentido nesta dúvida. O ato de servir duas doses de cachaça a um motorista de uma carreta carregada com 20 toneladas de soja, antes do começo da serra, equivale a dar uma arma carregada para um criança de 6 anos. Com a atenuante que a criança pode não ter forças pra puxar o gatilho.
Mas a perplexidade de assistir brasileiros defendendo o direito de matar vai mais longe. Nesta sexta-feira, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes entrou com ação de inconstitucionalidade contra a Lei Seca alegando que fere o direito do cidadão brasileiro de ir e vir. Deveria ter acrescentado: fere o direito do cidadão bêbado de ir, vir e matar.





