RUTH BOLOGNESE
NA MIRA DA TOGA (I)
Não vai ser fácil a vida dos candidatos a prefeito e vereador na campanha que se aproxima. A Justiça Eleitoral promete não dar mole pra ninguém e, do lado de cá, daqueles que correm atrás dos artistas da hora, e aí se incluem desde o departamento jurídico, a imprensa e até o cabo eleitoral, não se sabe com certeza o que pode e o que não pode se feito. Na semana passada, a Justiça paulistana multou a Marta Suplicy, a Veja, o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo por causa de uma simples entrevista.
Para baixar o stress eleitoral, e em nome do interesse público, esta coluna fez uma ampla análise da legislação eleitoral brasileira e faz agora uma consultoria de grátis pra todo mundo. Vamos lá:
Os candidatos a prefeito e a vereador podem:
1) Piscar para o eleitor
É exercício básico de simpatia na busca de votos. Mas se o pisco durar mais de 3 segundos pode indicar um sinal pré-combinado pra cobrir de paulada o adversário mais próximo, um convite para jantar mais tarde ou um cisco bacteriano.
Nos três casos, dá afastamento da campanha na hora.
2) Apertar a mão do eleitor
É o gesto mais comum no período eleitoral e praticamente 100% liberado. A não ser que a mão do candidato esteja suada (dá nojo e pode passar doença ruim), seja boba ou rápida demais para entrar e sair de um jarro.
Sinais inequívocos de mau presságio. Melhor a justiça prevenir já.
3) Abraçar o eleitor
Também é um gesto comum e casual em campanha. Se o eleitor for barbado e estiver sujo de graxa é caridade. Se a eleitora for jovem, perfumada e bonita, é sacanagem. Se for a própria patroa, é hábito e se for o adversário é abraço de tamanduá.
Em todos os casos, a Justiça pode punir com rigor.
4) Fazer discurso
É obrigatório. Mas existem variações: em tom alto demais, irrita o eleitor e o juiz de plantão. Baixo demais, predispõe a aliciamento pra formação de quadrilha. Longo demais, ninguém aguenta e chato demais, põe todo mundo pra dormir.
E se o discurso for feito de dedo em riste e falar da Carta de Puebla, a Justiça não precisa se preocupar: é o governador Requião e ele não dá voto pra ninguém.
5) Comício
Na era da TV e da Internet comício ficou mais raro em campanha eleitoral do que vereador honesto em Londrina. No caso do candidato, mesmo assim, decidir fazê-lo, só não pode distribuir paçoquinha. Aí, caracteriza troca de paçoca por voto e dá cana.
6) Apoio da patroa
Não existe na lei nenhuma restrição à participação da esposa do candidato na campanha. Mas em alguns casos pode ajudar ou complicar: ajuda quando ela for rica demais, porque disfarça as ''doações'' do Caixa 2. Ou quando for pobre demais, porque identifica-se com o pessoal do Bolsa Família.
Complica quando a patroa for bela demais e o candidato, ocupado demais na busca dos votos, pode acabar encontrando chifres. Ou feia demais, porque mostra um marido sem qualquer auto-estima. E cego pra vida.
No caso da patroa ser bela, rica, esperta e descolada, é melhor mantê-la bem longe da campanha. Nada a ver com a Justiça eleitoral e, sim, com o próprio lugar ocupado pelo candidato. De repente o eleitor pode querer a melhor opção...
07) Apoio das estrelas do Partido
Numa eleição é aconselhável superar antigas diferenças. Campanha é hora daquelas fotos de todas as lideranças partidárias de braços pra cima, mostrando força e união. Porém, nem tudo é perfeito. Se na hora de erguer os braços, a estrela for ''o estrela'' e preferir ficar de braço dado, há que avaliar o risco. Cada um sabe de si. Se o candidato descobrir que falta desodorante no pedaço, aí é tarde demais, há que aguentar, sorrir e cantar.
E se o braço for do presidente Lula, a estas alturas do campeonato, e com a popularidade dele, é aconselhável engessar o braço e ficar assim até o final da campanha. Tudo pelo voto.
* Continua no próximo domingo





