RUTH BOLOGNESE
Barrados no Shopping
A Lurdinha tem nome de nobre, Maria de Lourdes Andrade Pereira Cerqueira, mas não o é. Pelo menos não daquele ponto de vista que associa nobreza com conta bancária, título de realeza ou nariz empinado. Ela é apenas uma mulher que trabalha lá em casa há 14 anos e faz o melhor bolinho de arroz que se pode comer na vida: dourado, cheio de cebolinha verde, firme por fora e macio por dentro, atentado terrorista contra quem vive de olho na balança.
Pois a Lurdinha, além de fritar bolinhos de arroz e jamais ter comprado roupa de marca, declara-se totalmente favorável aos administradores do Shopping Palladium, recém-construído na divisa entre a parte mais rica da Capital e a periferia. Por experiência própria, aprova a atitude do Shopping de barrar a entrada de um grupo de jovens tão comuns nas grandes cidades, a turma do Rap, que usa calças caindo pela bunda, bonés virados para trás ou agasalhos de capuz. O assunto virou polêmica em Curitiba e segue em discussão.
Nos dois ônibus que pega todos os dias para chegar ao trabalho, centenas de vezes nesses anos todos a Lurdinha já se encolheu num canto quando pequenos bandos de três ou quatro rapazes pulam a catraca e invadem o corredor, com roupas estranhas, cara feia e devidamente turbinados pelo famoso ''Tubão'', uma garrafa PET de refrigerante misturado com cachaça. Durante o trajeto, se o bando não incomodar ninguém, já é lucro. Se não assaltar, é sorte.
Sábia Lurdinha. A seu modo, de maneira definitiva, ela deixa claro que, em tempos como esses, não se pode falar em rico contra pobre, branco contra preto, preconceito, ou discriminação entre os bem e os maus vestidos. Em tempos como os que vivemos, o inimigo comum é a violência. A única diferença entre a Lurdinha e Shopping Palladium é que aos ricos brasileiros se dá condição de montar milícias particulares, de barrar na porta e de serem atendidos prontamente pela polícia. Aos pobres, tão vítimas da violência quanto, só resta buscar um lugar no fundão do ônibus e silenciar. E quem tiver fé, que reze.
Com o Heitor e com o Dão Atiço
Entre os partidos que realizam as convenções para a escolha dos candidatos a prefeito da Capital nesta temporada, o PMDB é o que menos tem a apresentar, em termos de viabilidade eleitoral, e o que mais tem a perder, em termos de futuro político-partidário. E estamos falando do partido que está no Palácio Iguaçu pelo segundo mandato consecutivo, com uma base, cantada em prosa e verso como a mais guerreira e popular, e um líder, Roberto Requião, que foi o único a ser eleito três vezes governador.
E este mesmo PMDB chega à convenção 2008 com um candidato, o ex-reitor da UFPR, Carlos Moreira Junior, tão distante de seus redutos tradicionais que é conhecido na periferia (onde se concentram os votos) como ''Heitor'' Moreira, e onde o seu militante mais célebre, Doático Santos que, em mais de 30 anos de atividade política, nunca conseguiu se eleger a nada, é chamado de ''Dão Atico''.
Sem nenhum vereador pra chamar de seu na Capital, o PMDB tem tudo pra sair da eleição a prefeito totalmente esfacelado: uma fatia vai aderir, como soy acontece, ao pule de 10, Beto Richa, PSDB, aposta mais certa para se obter uma sinecurazinha qualquer no poder municipal; outra parte, com um olho mais gordo no poder central, vai cerrar fileiras com a candidata do PT, Gleisi Hoffmann, que pode não ter lá condições de levar a eleição para o segundo turno, mas é a alternativa mais confiável para não morrer de vergonha em outubro, com urnas vazias de votos; e o pessoal do núcleo duro, aqueles que ainda consideram Stalin um estadista, poderão aderir ao bonitinho Ricardo Gomyde, do PCdoB.
Com o ''Heitor'' Moreira Junior ficará seu próprio criador, o governador Roberto Requião, e seus correligionários amestrados, além da numerosa família aquinhoada com empregos oficiais e que, por causa disso, vão aderir por dever de ofício. São os votos com os quais o PMDB de Curitiba pode contar por enquanto, aqueles garantidos. O vexame, mesmo, a gente só vai ver em outubro.





