A professora Ana Lúcia Baccon ganha R$ 1.400,00 por mês, tem 35 anos, duas filhas, Pâmela (17 anos) e Isadora (8 anos), o marido é autônomo e ela dá aulas de matemática em Jacarezinho, Norte Velho do Paraná. É a mesma terra da ex-BBB Grazi Massafera que, graças à beleza e a um certo charme interiorano, passeia, vitoriosa, pelas páginas de ‘‘Caras’’ dando voltas na Meca européia do cinema, Cannes. Assim como Grazi, a professora de matemática de Jacarezinho é também uma vitoriosa, não pela beleza, graça ou oportunidade televisiva, mas por ter dado uma resposta que todo o povo do Paraná espera há pelo menos cinco anos, quando ouviu – e acreditou – na principal promessa do então candidato Roberto Requião sobre o pedágio, ‘‘ou abaixa, ou acaba’’. E acreditou por duas vezes, ao reelegê-lo em 2006.
  Depois de um trabalho coletivo de dois anos, com uma única ação, a professora Ana Lúcia ganhou no Tribunal Regional Federal (TRF), de Porto Alegre, nesta semana que passou, o reconhecimento da ilegalidade do pedágio de R$ 9,40 cobrado pela Econorte, a concessionária responsável pelo trecho que vai de Londrina para Ourinhos, no Estado de São Paulo. Firmou, com isso, uma jurisprudência que poderá servir de base para novas decisões contra este absurdo de taxas, as maiores do País, que todo paranaense paga quando circula pelo próprio Estado. E, afinal, deixou no ar uma pergunta que exige explicação imediata: por que, com todo o aparato jurídico que a banda oficial lhe coloca à disposição, com seu histórico de lutas políticas e sua fama de mau, o governador Requião entrou com 43 ações na Justiça contra o pedágio e perdeu todas até agora?
  A história de Ana Lúcia nada tem de excepcional, nem de milagroso e muito menos de sorte. Começou com a taxa de R$ 40,00 por dia num trecho de 20 km para sair de Jacarezinho e dar aulas em Ourinhos, no Estado de São Paulo, cobrado pela Concessionária Econorte. Inconformada, ela começou um movimento na cidade contra o pedágio, obteve oito mil assinaturas e passou a denunciar o caso para todas as instâncias do governo paranaense, do próprio governador Requião, com quem esteve uma vez pessoalmente, passando pelo DER e retornando para as prefeituras, Câmara de Vereadores, Ministério Público estadual, Assembléia Legislativa e por aí vai. Todo mundo era solidário com a luta, mas apoio efetivo mesmo veio do Ministério Público Federal, que decidiu encampar a briga. E aí, por estas voltas que o destino e a Justiça costumam dar, começando pela própria Econorte, e passando pela União, o Estado do Paraná, o DNIT e o DER , todos se tornaram réus na ação movida pela professora contra o pedágio.
  Foi pesquisando nos documentos oficiais que ela descobriu que, a exemplo do terremoto da China, o próprio DER chegou a mudar o mapa da estrada para legitimar a instalação da praça do pedágio: inacreditavelmente, a distância entre o marco zero da estrada e a praça foi ‘‘esticada’’ para cumprir as exigência legais e, afinal, manter o pedágio. Por detalhes como este, a professora Ana Lúcia emocionou os vizinhos gaúchos quando recebeu o resultado positivo contra a cobrança da taxa no Tribunal Regional de Porto Alegre.
  Ainda sob o efeito dessa decisão, Ana Lúcia se desdobra para atender entrevistas, continuar dando aulas, tanto em Jacarezinho como em Ourinhos, responder pela APP/Sindicato regional, que preside, e preparar a tese de doutorado. Acredita que chegará o dia em que, ao encontrar o governador Roberto Requião novamente, contará a ele que foi hostilizada pelo pessoal do DER. ‘‘Eles me chamaram de ‘Professorinha’ e me mandaram cuidar dos alunos e deixar as estradas para quem entende’’, revela.
  Mas ela sabe que, ao combater o bom combate, ensinou aos seus alunos, ao governo e a todos os paranaenses, a mais valiosa das lições: a importância de se exercer, plenamente, o ofício de cidadã.

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