RUTH BOLOGNESE
Osmar Dias vem aí
A ciência e os fatos desmentem a crença popular: um raio pode cair, sim, duas vezes no mesmo lugar. E a política pode contrariar as advertências? Quase sempre. Cavalo encilhado não passa duas vezes, mas o senador Osmar Dias está à espera, pela terceira vez, do cavalo encilhado da candidatura ao governo do Paraná e, disposto como nunca, pode até se antecipar. Desta vez, nem vou esperá-lo passar. Pulo antes, afirma.
Curioso, este senador Osmar Dias. Mais novo, mais caipira, mais tímido, um pouco menos vaidoso e mais consistente do que seu irmão-estrela, Álvaro Dias, dele a vida parece exigir sempre um pouco mais de paciência. Pois que somente agora, aos 56 anos completados na semana passada, uma derrota milimétrica sobre Roberto Requião há dois anos e, mesmo assim, tiro e queda na auto-estima de quem era o candidato imbatível ao governo do Paraná, ele se sente, finalmente, preparado para chegar ao Palácio Iguaçu. Anos e anos separam o homem de barba totalmente branca e cabelos pretos, de terno impecável e gestos comedidos, que reclama com elegância do abacaxi azedo demais servido no café da manhã de um hotel 4 estrelas em Curitiba, daquele rústico secretário da Agricultura de antanho, chegado a uns palavrões obscenos e barba à la Antonio Conselheiro. Se a vida moldou Osmar Dias, aparentemente foi para melhor. E se ensinou algumas coisas, eis aí um homem que, agora sim, pode ter tudo a ver com a bandeira de um Paraná rural, mas linkado à Bolsa de Chicago, chegado a um Leitãozinho à Pururuca, mas que gera energia do bagaço da cana. Um perfil de governador à altura do agronegócio, da produção de alimentos em escala sustentável, da tecnologia agrícola que o Paraná já produz, mas às custas do próprio esforço.
O último bife
Então, eis o Homem pronto e acabado para governar o Paraná? Nem tanto, nem tanto. Neste lento aprendizado para chegar lá, o primeiro ato de Osmar Dias foi exorcizar o maior fantasma, aquele inimigo subliminar que ele aponta como a causa da derrota da eleição passada, pessoal e intransferível: a flebite nas pernas que, ao mesmo tempo que o impedia de gastar a sola do sapato na campanha, trazia um elemento devastador para o próprio candidato (o medo da doença ruim, do que podia ser) e que se tornou arma poderosa nas mãos adversárias.
Depois das cirurgias que trocaram as veias safenas de lugar e irrigaram como devem ser as panturrilhas, Osmar Dias passou a caminhar 40 minutos por dia na esteira, às 5 horas da matina, e emagreceu 10 quilos. Mas ainda não era suficiente: passou uma semana no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, submeteu-se a um check up de cabo a rabo, e saiu de lá bala, nas palavras de um homem satisfeito consigo mesmo.
Enquanto buscava soluções para curar o corpo, ruminou a questão emocional e, finalmente, parece ter encontrado o lugar na grande família a qual pertence. Já não sou o caçula sentado no centro da mesa a quem o pai oferece o último bife, descreve. E isso significa que aquela velha rivalidade desbotada entre ele e o irmão, Álvaro, na disputa pela cadeira de governador, ficou apenas e somente velha. Com a morte de seu Silvino, cada filho poderá escolher o próprio bife.
Livre e leve, o senador Osmar Dias está se comportando agora conforme a cartilha de um futuro candidato prevê: prepara o pequeno partido que conduz no Paraná, o PDT, para futuras coligações políticas, estuda a fundo as características regionais do Estado
(quer fazer propostas para cada uma em particular) e pensa em formar um núcleo de experts para cuidar da imagem dele nos meios de comunicação. A facilitar-lhe a caminhada está aí um mundo onde os alimentos se tornaram, de fato, assunto de primeira necessidade, ou seja, olha a hora e a vez do Paraná. E, para isso, ninguém melhor do que um homem ligado desde sempre à agricultura no Palácio Iguaçu para saber aproveitá-las. Ainda no contexto da cartilha política, o Urtigão de Vara Curta não fala mal do adversário mais recente, Roberto Requião, nem alimenta arestas com o do futuro, Beto Richa. A vida ensinou a Osmar Dias que a paciência deve ser maior que a penitência. E que, para um homem, às vezes, é quase impossível aprender aquilo que ele pensa que sabe. Osmar parece ter aprendido.





