Três fatos estranhos aconteceram nesta semana, aparentemente sem ter nada a ver um com o outro, mas tem. O primeiro, o desvendar pela ciência da identidade primordial de um bicho chamado Ornitorrinco, cujo desafio já começa pelo nome e a descrição cai como uma luva no perfil ideológico do PMDB. Ali, tanto no bicho como no Partido, conseguiram se ajeitar elementos totalmente díspares, como a leveza dos pêlos e a estranheza do bico, ou comunistas raivosos com capitalistas aloprados. E pra arrematar, a condição de mamífero, da mãe e do governo que o Partido e o bicho jamais conseguiram abandonar. É uma condição excepcional a deste ser recém-desvendado, que pode servir também para exemplificar situações corriqueiras na política, aqui relatadas ontem.
O segundo fato estranho foi uma reunião que também aconteceu ontem, na Capital, chamada 1º Encontro Ônibus de Curitiba, assim mesmo, sem a preposição ''de''. Não se tratou de um encontrão entre ônibus, nem de um incidente, mas sim de 50 admiradores destes grandes veículos, solução e horror das cidades brasileiras, que se reuniram para falar sobre ônibus, curtir pneus, acentos e janelas e passar algumas horas sentados lá dentro. Os admiradores deste meio de transporte são conhecidos por ''busólogos'' e como se vê, algo tão fora de propósito que um nome destes só pode ter sido inventado por um ''bundólogo''.
E, finalmente, o terceiro fato, a reação distante, senhorial, algo blasée do presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, deputado Nelson Justus, que informou que a casa não tem a menor pressa em examinar a tal PEC da Transparência, Proposta de Emenda Constitucional, enviada pelo governo Requião para que todas as instâncias de poder no Paraná, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário passem a destrinchar e a divulgar as despesas feitas com dinheiro público, ou seja, todas as despesas. Ora, esta PEC deve ser um verdadeiro Pecado do ponto de vista de quem se acha tão acima de qualquer suspeita e tão merecedor de viver no bem bom com o dinheiro alheio. E, pior, já veio com um Pecado Original porque só foi enviada como vingança de um dos três poderes, o Executivo, inconformado com a insistência do Ministério Público em cobrar-lhe prestações de contas.
O que tem a ver
Bem, juntar a tranquilidade caricatural do presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, teúda e manteúda com dinheiro dos nossos impostos e que se nega a dizer o que faz com ele, e o 1º Encontro de Busólogos de Curitiba é mais simples do que assinar contracheque pra parente empregado em gabinete de deputado ou com cargo no governo. Está na cara: só um Estado cuja Capital concentra cidadãos que passam um sábado gelado admirando ônibus poderia ser tão magnificamente alienada para não se indignar diante de uma falta de respeito com o dinheiro público como esta, produzida em conjunto pelo Governo do Paraná, Assembléia e Judiciário. O dinheiro é nosso, o voto é nosso, eles trabalham pra nós e fazem doce na hora de prestar contas? A transparência em gastos públicos não pode ser fruto da irritação do Governador Requião (olha o pleonasmo aí gente!), da displicência do presidente Justus, nem de um Judiciário que se finge de morto no assunto. É direito de votantes.
E o tal do Ornitorrinco, como é que fica nesta história? Não fica. Se ele tivesse sido um pouquinho mais exigente com o Todo Poderoso, solicitado os rabiscos da criação, discutido um pouquinho mais aquela idéia chamada de ''convivência democrática'' que colocou pêlos e bicos no mesmo corpo, não estaria até hoje aí, como um ser estranho, difuso e sem rumo na trajetória da evolução. Ele e o PMDB. Transparência é tudo!

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