Primeira parte
Um casal de Londrina que veio para casamento em Curitiba espantou-se muito, dia destes, com um velho hábito dos curitibanos em festas concorridas e tradicionais. Conta o casal que, ao chegar pontualmente ao salão azul do Clube Curitibano, palco das grandes comemorações de famílias da alta classe média da Capital, teve que suar muito o traje de gala para encontrar duas cadeiras vagas e, mesmo assim, num lugar tão distante dos bufês e da pista que não dava nem pra distinguir o noivo dos garçons.
Discretamente, o casal saiu em busca de explicações e descobriu que mais tradicional do que os pombinhos no bolo em festa de casamento é convidado combinar com convidado e um vai para um lado (na cerimônia da igreja) e o outro segue direto para o salão de festas onde, rapidamente, ocupa as melhores mesas e fica guardando lugar. É coisa pequena, quase sem importância, mas desvenda um pouco a maneira de ser das gentes da Capital onde, revela o mestre Dalton Trevisan, cada família esconde um louquinho no sótão.
Pode parecer mal agradecida tal indiscrição colocada aqui, neste espaço, por quem há 36 anos deixou o Norte do Paraná para viver entre curitibanos. Mas é irresistível observar essa gente de coxas brancas e almas tímidas, que trouxe do gen dos antepassados o nariz lá nas alturas, mesmo correndo risco de pisar no cocô do cachorrinho.
A arguta observação do casal de Londrina faz lembrar um fato semelhante, há alguns anos e que também aconteceu num tradicionalíssimo clube da Capital, o mais aristocrático, o Graciosa Country Club. Durante a indefectível fila para convidados se servirem da Paella, duas loiras de meia idade, daquelas de topete e perfumadas, criadas a danoninho, simplesmente se serviram de todos os camarões que cobriam o belo prato espanhol. Só de camarões. E saíram em busca de uma taça de vinho branco, deixando aos enfileirados que as seguiam apenas um surdo protesto de indignação.
O discurso ideal
Hoje, nesta cidade imensa, cercada de contornos mil e uma periferia de dar gosto, ainda sobrevive essa classe média típica do Sul, muito mais branca do que morena, que tem casa na praia e vai a casamentos nos salões dos clubes ou nos bufês confortáveis espalhados pelas áreas em bairros nobres e bem arborizados.
E se saboreiam o popular sagu misturado com caldo de peixe como se fosse caviar iraniano, um truque descoberto pelos ''promoters'' de eventos para aumentar a taxa de lucro, não importa muito. O importante é conseguir mesa de pista e exibir a jovem mulher, ora na pessoa da secretária de ontem, ora no resultado de uma boa plástica na patroa.
Trata-se de um pessoal muito do bem arrumado que acalma a culpa ecológica ao trocar a sacolinha de plástico pela de pano no supermercado e que não sabe exatamente a quem responsabilizar pelos índices crescentes da violência da Capital. Que está nervoso e ansioso com o aumento de novos carros pelas ruas (são fabricados mais carros do que crianças em Curitiba), mas continua presenteando o filho com o Corsinha da hora.
Pois é justamente esta classe média, eterna viúva inconformada de Jaime Lerner, que se tomou de amores pelo prefeito Beto Richa, encantada com um projeto de gestão feito na base do ''vamos remexer em tudo, revolver paus e pedras, para não mudar nada''.
Em resposta a este amor de encantamento, presente, mas não necessariamente permanente, que o prefeito Beto Richa já tem o discurso preparado para a reeleição, em outubro: obras, obras e mais obras. E para quem, todos os demais candidatos, da loura petista Gleisi Hoffmann ao embalsamado Rubens Bueno, do homem da noite, Fábio Camargo, ao reitor sem graça, Carlos Moreira, ainda não encontrou o que dizer.
Mas isto já é assunto para o próximo capítulo, ou próximo domingo.

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