RUTH BOLOGNESE
A falta que um prático faz
O segundo governo Requião desta década chega ao meio, e, para ficar no trocadilho, meio murcho. Cada vez mais ''solito'' na arte coletiva de governar, o mandatário número 1 do Paraná já não encontra uma obra ou um projeto de seu governo cuja descrição ultrapasse o tempo (cerca de 20m) que o carro oficial leva para percorrer o verde percurso diário entre a Granja do Canguiri, onde mora a família Requião, e o Palácio Provisório das Araucárias, onde a família Requião inteira está empregada. Já os problemas, do crime de lesa pátria que se comete contra nossa porta principal, o porto de Paranaguá, à promessa não cumprida de abaixar ou acabar com o pedágio e à segurança, dão assunto pra cortar o Paraná de fora-a-fora. Pelo que se sabe, no social, o governo continua distribuindo o mesmo leitinho das crianças. E na área financeira, até agora, não conseguiu resolver aquela dívida que nos tira do caixa R$ 5 milhões/mês para honrar pagamentos do velho e bom Banestado, hoje submerso no azul/laranja do Itaú.
Primeiro produtor nacional de grãos, apto a produzir mais do que nunca o combustível da hora, o etanol, e com um bom pedaço das terras mais férteis do mundo, no exato momento em que não se fala de outra coisa senão a crise universal de alimentos, o Paraná, hoje, está na dúvida Tostine: foi o Estado que ficou muito, mas muito maior do que o governo Requião ou foi o governo Requião que ficou muito, mais muito menor do que o Estado que comanda?
Sem ninguém
Governar uma cidade, um estado e um País não é tarefa de um só, e o Comandante-em-chefe, como diria o próprio presidente Lula, deve fazer o papel de garoto-propaganda, vender projetos e realizações, defender interesses de seus representados e, quando necessário, dar o voto de Minerva. O resto é gestão, é trabalho de peão, é o primeiro escalão suando dia e noite pra fazer a máquina funcionar. E, na verdade, o núcleo de decisões de um Governo não raro fica na mão de um ou dois executores, como já foi, só para citar um exemplo mais próximo, o papel do fiel adjunto e sócio, Cássio Taniguchi, no governo Lerner. Ou, um pouco mais longe, as funções exercidas pelo finado Nacib Jabur no governo Álvaro Dias, ou mais longe ainda, por Euclides Scalco e João Elísio Ferraz de Campos no governo José Richa. Trata-se do pára-choque do governador de plantão, que leva quase sempre a solução pronta e acabada e, por isso mesmo, não pode prescindir de três condições essenciais à função: ter o necessário conhecimento dos temas fundamentais, a confiança absoluta do titular e mais ainda, uma certa ascendência sobre ele. É o sujeito prático que permite ao chefe maior surfar tranquilo nas ondas da atividade política, pura e simples.
No primeiro governo Requião, dois secretários exerceram este papel, Heron Arzua (Fazenda) e Reinhold Stephanes (Planejamento). Foi quando se implantaram mudanças nos sistema tributário do Estado, abrangendo, micro, pequenas e médias empresas, e o resultado se faz sentir até agora, com o aumento de investimentos e empregos. Foi o tempo da instalação do Plano de Cargos e Salários para professores, da manutenção do projeto do ParanáPrevidência, da construção de hospitais, convênios na área da saúde, dos projetos de hidrelétricas, como a Usina Mauá, e por aí vai.
Mas o tempo foi passando, Stephanes atendeu ao canto da sereia de Brasília, e Heron Arzua, em plena vivência de um novo amor na meia-idade, resolveu dedicar mais tempo ao ser feliz aqui e agora. E eis que Roberto Requião ficou sozinho na arena, e sem perspectiva de encontrar, a curto prazo, um braço direito para tocar a gestão do Estado, 24 horas por dia. Na Casa Civil, o secretário que poderia ocupar este espaço, Rafael Iatauro, envolveu-se numa disputa disparatada pela presidência da Federação de Futebol e agora lambe as feridas de uma derrota acachapante. O vice, Orlando Pessuti, cuida da própria seara política, e os demais secretários, por jovens demais ou recentes demais, ainda não reúnem as condições para impor opiniões e até decisões a um chefe absolutista e mandão. Resultado: o governo Requião se dispersa e a administração descamba. E vai diminuindo na mesma velocidade com que se encaminha para 2010, quando tudo já estará terminado.





