RUTH BOLOGNESE
Prevenir para não matar, nem morrer
Quem entre nós não conhece uma família devastada pela dor de perder um filho, ou uma filha, na flor da idade, em acidentes nas ruas e estradas brasileiras? Do ministro da Cultura, Gilberto Gil, à viúva de Tom Jobim, ambos no Rio de Janeiro, até o correspondente da ''Folha de São Paulo'' em Londrina, José Maschio, os que vêm à memória mais recente, todos eles convivem com o trauma de receber a notícia repentina, tantas vezes temida, do desastre fatal. E por nos mortificarmos tão frequentemente com a dor alheia, ficamos com o coração entre as mãos a cada batida do portão da frente, quando nossos jovens saem pra rua apenas pra celebrar a vida, direito indiscutível que lhes cabe.
Na euforia do crescimento a todo custo, a economia brasileira abre todas as portas para as famílias de classe média transformarem em realidade a cena do carro novinho, embalado pelo laço vermelho, que vai fazer brilhar como nunca os olhos do menino recém aprovado no vestibular. Duas alegrias que não têm preço e também resultados de direitos indiscutíveis de pais que ralaram e de filhos que se esforçaram. E hoje, ninguém precisa ir longe para comprovar o fato. Quem passa, por exemplo, pelo campus da PUC/PR, a qualquer hora, vai se deparar com um mar de veículos novinhos em folha, à espera dos universitários motorizados. Ninguém segura mais a dobradinha aprovação no vestibular-carro no campus. Assim como, ninguém sabe, a estas alturas, se o guri ou a guria vai ter maturidade para não transformar o primeiro carro em arma contra si ou contra seus próprios amigos.
Diante deste cenário, o Conselho Nacional de Trânsito, (Contran), divulgou nesta semana a Resolução 265, que se insere na Política Nacional de Trânsito e mira, justamente, os jovens que estão beirando a cerca para sentar ao volante do primeiro carro. A resolução estabelece que as escolas de ensino médio deverão ter, a partir de 2009, nos currículos escolares, disciplinas de formação técnico-teóricas antes da obtenção da carteira de motorista. O que a resolução do Contran contém de importante, mais, de fundamental, é o fato de levar informação e formação para o aluno que, daqui dois ou três anos, estará dirigindo pelas ruas. Ou seja, age no momento exato, quando o carro passa a ser objeto de desejo, símbolo de auto-afirmação no adolescente doidinho para azarar a menina mais bonita da sala.
O Detran/PR quer ser o primeiro no País a implementar a Resolução 265 e ofereceu ao Sinepe/PR, Sindicato de Escolas Particulares, onde trabalho como assessora, uma parceria para formar professores no segundo semestre de 2008. Serão 120 horas de curso onde, mais do que a formação técnica, afeita às auto-escolas, interessa repassar a responsabilidade de quem dirige. Formação de cidadania. É um avanço e um passo importante que, se levado a sério, pode reduzir num futuro próximo as horripilantes estatísticas brasileiras de acidentes nas ruas e nas estradas. E evitar que tantas famílias chorem por seus filhos. E, pior ainda, se sentindo culpadas.
Papel da mídia
Podem apontar a cobertura da imprensa brasileira como exagerada no caso da menina Isabella Nardoni. Não é. A morte, cercada de uma violência tão inexplicável, por ocorrer justamente no ninho familiar, despertaria qualquer sociedade, de primeiro, segundo ou terceiro mundo. Até hoje, quase dois anos depois, ou mais, Inglaterra e Portugal se interessam por qualquer referência no caso da menina Madeleine, filha de um casal de médicos ingleses, que sumiu de um quarto de hotel de turismo português.
Para qualquer um de nós, o mistério em torno de tais tragédias, é o que assusta e amedronta mais. Precisamos de culpados e de puni-los. Para nos proteger, como seres humanos, de nós mesmos.
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