RUTH BOLOGNESE
Com ferro, feres...
Quando eleições se aproximam, assim como na guerra, a primeira vítima é a verdade. A semana trouxe, em Curitiba, uma tentativa da oposição ao prefeito Beto Richa de criar um grande movimento social em torno do Passe Livre para estudantes. Mais antigo do que andar pra frente, diga-se, mas no terreno da política, até válida. Pois não foi através da mesma tarifa do transporte que o então vice-prefeito de Cássio Taniguchi, virou o cocho e conseguiu se firmar como candidato? A primeira ousadia, ninguém esquece: numa atitude inesperada, o jovem Beto Richa aproveitou uma viagem do titular e simplesmente cancelou um aumento no preço da passagem de ônibus da Capital, rompendo com o grupo de Cássio e conquistando a simpatia do eleitorado. Bingo!
Agora, Gleisi Hoffmann, a candidata loura do PT, segue a mesma trilha e com o adicional de pisar em terreno conhecido, a massa de estudantes, egressa que é das lides estudantis quando ainda militava mais à esquerda, no PCdoB, partido que conta com o voto dos mais jovens, e só dos mais jovens, porque quando amadurecem eles pulam a cerca para uma oposição mais viável e mais confortável. Com intenções de voto quase nulas em Curitiba, sem um verdadeiro projeto de governo para colocar na mesa e com a imensa tarefa de enfrentar a gestão de Beto Richa, com mais de 70% de aprovação popular, Gleisi não tem muito tempo, nem melindres, para tentar levar a eleição pelo menos para o segundo turno na Capital.
Por isso, um levante estudantil, em torno de uma causa simpática, o Passe Livre, surge no cenário de Hoffmann como a verdadeira lâmpada no fim do túnel. A história mostra que quando se coloca estudante (ou o exército) nas ruas, todo mundo sabe como começa, mas não sabe como termina. Até agora, a prefeitura de Curitiba se mantém altaneira na fotografia, perdendo de 2 a 1 porque a Guarda Municipal bateu em manifestantes ao vivo e a cores há duas semanas. Nesta semana, diante de mais uma manifestação, e desta vez tendo Gleisi Hoffmann praticamente como chefe de torcida, respondeu, quase aos sussurros que, se o Passe Livre for concedido, a tarifa passa de R$ 1,90 para impensáveis R$ 3,70.
Do alto de seu grande canteiro de obras em que Curitiba se transformou, que considera o grande cabo eleitoral de outubro, o prefeito Beto Richa parece não ter acordado para o fato que, em período eleitoral, o que vale é a versão (ou a barulheira) e ganha quem falar mais alto. Em épocas áureas, Roberto Requião derrotou Jaime Lerner, que vinha de uma gestão excepcional, reconhecida no Brasil inteiro, e estava com 60% de preferência eleitoral, com um discurso vago de contrapor o centro da cidade, ''privilegiado'', com a periferia, ''abandonada''. Não era uma coisa nem outra, mas quem resiste ao discurso da Justiça Social?
Eleição se começa a perder muito antes do fato consumado. É uma sogra fantasma aqui, outro primo fantasma ali, um tabefes em estudantes registrados por câmeras estrategicamente colocadas, e um excesso de confiança no próprio taco que só serve de arma para o adversário. Nestas alturas, nenhum candidato de oposição está preocupado em falar a verdade, debater Passe Livre na real ou fazer as contas de quanto custaria ao bolso do curitibano deixar estudante andando de graça por aí. Se servir para desestabilizar o poder municipal, é pimba na gorduchinha e depois de eleito, ou eleita, a gente resolve. É o que dona Gleisi está fazendo, que Roberto Requião já fez e Beto Richa idem. Cada um na sua e o eleitor por todos eles.





