RUTH BOLOGNESE
Fazer o bem
Não foi à toa que a própria polícia do Paraná chamou a atenção, na semana retrasada, para o aumento da violência que vem caracterizando os roubos e assaltos na Capital. Ao menor sinal de reação ou hesitação da vítima, o bandido manda chumbo.
Nesta quarta-feira, o motociclista Marcelo Guibur dos Santos, de 42 anos, foi morto com um tiro na cabeça enquanto tentava socorrer uma dona de casa que havia acabado de atropelar na Avenida Manoel Ribas, no outrora pacato bairro de Santa Felicidade. Por mais incrível que pareça, um assaltante aproveitou a confusão do acidente e o momento estressante do motociclista para roubar-lhe a moto e, empurrado para um lado, não hesitou em atirar pra matar.
Qualquer motorista de qualquer cidade sabe que nada mais assustador do que atropelar um pedestre. Parar imediatamente e ajudar o acidentado é parte inerente, praticamente uma reação instintiva, de quem dirige o veículo. Fugir a esta responsabilidade é crime previsto em lei, com agravante da pena e comportamento afeito só às almas mais frias, ou inconseqüentes, ou drogados e bêbados.
Diante do que aconteceu com o motociclista curitibano, que morreu porque agiu corretamente, dentro da lei e da humanidade que deve caracterizar nossos atos, é difícil não imaginar: ora, se ele deixasse a mulher atropelada entregue ao seu próprio destino, a estas horas estaria vivo. Ou, em outras palavras, se fosse um perverso, de coração frio, preservaria seu bem maior.
A mulher teve apenas escoriações leves e sobreviveu. O bandido saiu andando do local do crime, ileso, e está livre, leve e solto por aí, em busca de novas vítimas. E o motociclista morreu na hora.
Episódio que encerra uma lição dura, quase inacreditável, onde fazer o bem e o correto pode ser a pior opção. Tristes dias os que vivemos.
Em Blumenau, por circunstância
Cercada de morros por todos os lados, atravessada pelo Rio Itajaí-Açu, quente e limpa, esta cidade de alemães, a 50 quilômetros do litoral catarinense, é hoje um dos maiores centros de transplantes, principalmente de fígado, do País. No ano passado, o Albert Einstein, em São Paulo, realizou 78 transplantes do gênero e ganhou prêmio nacional pela façanha. No mesmo período, o Hospital Santa Isabel, que no ano que vem completa 100 anos, fez 74 e registrou o maior índice de sobrevida do País. Mas não é exatamente por esta experiência bem sucedida, ou pela proximidade geográfica, que o jornalista Pedro Franco, um espanhol-curitibano de 56 anos, acometido por uma hepatite B há muitos anos, recebeu, na última quinta-feira, o fígado de um rapaz de 18 anos, de Florianópolis. Esta história, familiar, foi relatada nesta semana aqui neste espaço. No Hospital Santa Isabel, a principal equipe da área é coordenada pelo médico Marcelo Nogara com o cirurgião curitibano Júlio Wiederkehr, com especialização na Alemanha, que também opera nos hospitais da Capital paranaense.
O motivo da vinda para Blumenau é que, aqui, alguns procedimentos elementares fizeram a diferença e mudaram a vida de brasileiros de várias partes do País: a população é permanentemente informada sobre a importância da doação, equipes médicas são treinadas para a captação de órgãos e o atendimento hospitalar, pós-operatório, é irretocável. Condições que credenciam o hospital para receber recursos do SUS específicos para estas cirurgias, as maiores e mais complexas do sistema de saúde.
São grandes conquistas, de fato. Mas nada que qualquer outro hospital, de médio porte, como o Santa Isabel, em qualquer outra cidade brasileira, não pudesse realizar. Um outro fator, no entanto, e certamente o que impulsionou a formação desta infra estrutura médica, foi a legislação do estado de Santa Catarina para a doação de órgãos, que não tem as mesmas especificações técnicas da legislação paranaense, com maior rigidez. Cada Estado, no caso de doação de órgãos, tem suas próprias leis.
Esta foi a circunstância de lei que deu oportunidade ao curitibano Pedro Franco de ser operado com a urgência que o caso dele exigia. Aqui, a fila anda muito mais rápido. E é esta circunstância que deveria ser examinada por nossos parlamentares na Assembléia Legislativa. Com rigor e minúcia.
A nós, familiares paranaenses, cabe a gratidão aos vizinhos.





