RUTH BOLOGNESE
Uma conversa (quase) pessoal
Nesta semana, levada pela mão do secretário da Fazenda e amigo antigo, Heron Arzua, esta brava colunista adentrou o Palácio das Araucárias pela primeira vez, e chegou até o núcleo duro, o primeiro gabinete, isso mesmo, o local no Centro Cívico de onde o governador Roberto Requião manda e desmanda no feudo que lhe cabe governar. E mais: o gabinete com o Próprio Governador dentro dele. Querem ler a história inteira com emoção ou sem emoção? Vamos a ela:
Na última terça-feira, por volta das 15 horas, entrei no Gabinete e o primeiro impacto foi o tamanho da sala retangular: é tão grande, mas tão grande, que dá a impressão de nela caber os 10 mil eleitores que deram a Requião a vitória sobre Osmar Dias na reeleição. Grande, clara, de pisos brancos e poucos móveis. Impecável.
Um homem estava acomodado num sofá e uma mulher de cabelos brancos, calça fuseau preta e blusa escura, magérrima, se debruçava sobre ele, com algumas pastas nas mãos. Era dona Maristela, que foi se despedindo do marido, colocando óculos escuros, saindo e dizendo em voz alta: ''Agora, vou cuidar dos meus japoneses''. Certamente uma nova exposição no Museu Niemayer, que ela preside.
Quase deitado no sofá, o governador Requião deitado continuou, mesmo durante os cumprimentos. Sentei-me no canto do mesmo sofá, e deparei-me, de repente, com o famoso sapatênis, preto, que o governador usa com meias, também pretas. Do ponto de vista estético, um horror.
Falante
De camisa azul clara, calça jeans, tranquilo, ele disse que estava à espera do pessoal da Fiat, que comprou a fábrica de motores Tritec. E os assuntos foram se emendando um no outro: a violência em Curitiba ''eu gostaria que me assaltassem, iria matar todos eles'', comentou o governador; um relógio Patek Philippe que Heron usava e que poderia atrair assaltos, comprado no Paraguai, por 30 dólares, obviamente falso; a febre amarela, ''eu dei 50 mil vacinas para o bispo Fernando Lugo (candidato à presidente no Paraguai)'', disse o governador e contou que gostava do general Oviedo, mas agora quer Lugo lá. E a conversa foi indo, o tempo passando, até que tomei a iniciativa de dizer o motivo que me levara até lá.
Ex-maridos
- Meu ex-marido está muito doente, trabalha no Governo há 3 anos, e é preciso que se resolva a situação funcional dele, expliquei.
- Quantos ex-maridos você tem, Rutinha?
- Dois ex-maridos, Governador.
- Se eu soubesse que você era tão dedicada aos seus ex-maridos, teria me casado com você, Rutinha.
- Pois é, Governador, mas o problema desse ex-marido é apenas burocrático, exige solução imediata e até agora nada aconteceu.
- Então vou demitir um funcionário, chamar o Pedro Franco (o ex-marido) e resolver o problema de uma vez por todas, decidiu.
- Não se trata de demitir ninguém, Governador. É preciso desemperrar a burocracia e pronto.
- Então vou mandar internar o Pedro Franco num hospital, insistiu.
- Não, Governador, isso não. É preciso resolver apenas a situação funcional dele.
- Chamem o Pissetti, ordenou. É o secretário de Comunicação, a quem o Pedro Franco, que é jornalista, está subordinado. Alguém informa que Pissetti está no Paraguai.
- Vou demitir o Pissetti. Não preciso de secretário de Comunicação. Estou com 78% de aprovação nas grandes cidades sem gastar nada'', comenta o governador. Em seguida manda chamar o irmão, Maurício, secretário de Educação, com quem Pedro Franco trabalha. Não há resposta nenhuma e o Governador se lembra que Maurício havia escapado de um assalto na noite anterior porque fechou o portão e começou a gritar, espantando os ladrões.
Aí, alguém avisa que o pessoal da Fiat chegou, e entraram juntos no gabinete o presidente da Assembléia, Nelson Justus, o chefe da Casa Civil, Rafael Iatauro e o deputado Alexandre Curi. O governador se levantou, cumprimentou a todos, e não havia mais clima pra conversa. A sala se encheu de outros assuntos. Saí discretamente e entrei em salas erradas, cheias de divisórias e, com certo alívio, alcancei a rua. O problema do Pedro Franco está resolvido? Vai saber. Governos, como pessoas, são ciclotímicos. Mas o governador Requião, pelo menos desta vez, foi um fofo.





