O poder não afaga

Antes de escrever a dura carta contra o governo e, principalmente, contra o governador Roberto Requião, o ex-procurador Sérgio Botto de Lacerda, ligou muitas vezes para o gabinete, tentando falar com o governador. O número de ligações tem divergências: mais de 30 vezes segundo o próprio Requião, 15 vezes, de acordo com pessoas próximas ao ex-procurador, 2 ou 3 vezes conforme um observador privilegiado da crise, e mais lúcido do que os eternos ''fogueteiros de plantão''.

Diferentes números à parte, o fato é que a saída, pela segunda vez, do governo Requião, faz do advogado Botto de Lacerda mais que uma vítima do jogo de gente grande em que se transformou o atual governo, uma vítima da síndrome que já atacou dezenas de amigos e assessores próximos do governador nos 30 anos em que ele construiu a carreira política vitoriosa no Paraná: é a síndrome da expectativa com que Requião primeiro seduz a quem lhe interessa, depois acalenta e finalmente, destrói, sem dó nem piedade.

No bom português, ou numa análise da psicologia mais rasteira, o governador sabe como dar corda para que o ambicioso da hora se sinta poderoso, depois protegido e, na sequência lógica, ungido. Até que acabe se enforcando por conta própria. Foi assim com um dos raros políticos de boa alma que o Paraná produziu, Maurício Fruet, na sucessão para a prefeitura da Capital; com Álvaro Dias, na campanha para o Governo; com Mário Pereira, no Palácio Iguaçu; com o filho de Maurício, Gustavo Fruet, em nova disputa dentro do PMDB para a prefeitura de Curitiba; e até com os próprios irmãos, Maurício e Eduardo, em campanhas eleitorais. Foi assim com dezenas de outros assessores mais próximos e menos votados, que ficaram ao léu quando a escada ruiu. A esse modo de agir do governador Requião, a carta do ex-procurador Botto de Lacerda sintetiza numa frase: ''usou-me o quanto pode, mas nunca ousou ser leal e firme''. Frase que caberia na boca de qualquer um dos nomes citados acima.

Botto de Lacerda já estava na mira de toda a cúpula da Copel há algum tempo, devia saber disso, porque nada como se sentir, ou ter a ilusão de ser, ''o homem forte'' de um governo, qualquer governo, para despertar toda sorte de malquerer. As informações que vieram a público dão conta de uma ''consultoria'' a uma empresa privada em negociações com a Copel, mas nenhum pagamento feito ou negócio fechado, documentado. Ou seja, Botto caiu pelo que deveria ter feito. Ou, em tempos de gerúndios e outros pretéritos maltratados, do que poderia vir a fazer.

Mais do que a cama de gato preparada pelos conselheiros-desafetos, o que magoou o ex-procurador, e a carta de escrita apressada mostra isso, foi o silêncio do governador. ''Se tivesse recebido um mínimo afago, uma palavra apenas de crédito de Requião, era do que Botto precisava para permanecer na briga'', avalia a testemunha privilegiada da crise. Não recebeu, jogou a toalha e pegou o boné. Mais um que tomba na mira do colecionador de armas e de crédulos, Roberto Requião.

Ser jovem no Paraná

Pode ser uma grande coincidência, como também pode ser um grande sinal: está cada vez mais perigoso ser jovem, e de classe média, no Paraná

Com a morte da estudante londrinense Amanda Rossi, de 22 anos, são três jovens assassinados de forma brutal em menos de duas semanas e nas três principais cidades do Estado: Bruno Lopes, 19 anos, morto por seguranças privados em Curitiba, e Márcia Andréia Constantino, 10 anos, seviciada e morta em Maringá.

É brutalidade demais contra quem estava apenas começando a vida adulta, ou nem isso ainda. E os três jovens se encontravam em situações corriqueiras. Bruno tentava pichar um muro, sozinho, quase no centro de Curitiba, Márcia estava no pátio de uma igreja evangélica, e Amanda, dentro do campus da Universidade do Norte do Paraná (Unopar).

Ou seja, o perigo ronda. E está chegando cada vez mais perto.

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