RUTH BOLOGNESE
O casamento de Mariela, filha do empreiteiro José Ferreira, da construtora Tucuman e doador de finos vinhos da adega do Canguiri, foi na semana passada e reuniu, como o velho Ibrahim Sued dizia antigamente, todos os ocupantes das caravanas alto padrão de Curitiba, deixando os cães a ladrarem, sôfregos.
Como a revista ''Caras'' registra apenas fotos e manifestações de alegrias durante estas ricas festas, alguém tem que fazer o trabalho mais pesado, registrar as verdades e os desabafos que se dizem depois de uns tantos brindes do champagne com bolinhas.
Vamos, então, ao carregamento do piano, tal qual aconteceu e relatado por diversas testemunhas. Na cerimônia religiosa do casamento de Mariela, a primeira-dama, dona Maristela Requião sentou-se ao lado do ex-ministro Euclides Scalco, que processa o marido dela, Roberto, por calúnia e difamação. Ao ver o banco escolhido, Requião se aproximou rápido e desferiu: ''Maristela, vamos sentar mais à frente''. Manter a distância se justifica porque Scalco sonha com a penitência de Requião na Justiça e, mesmo sendo católico praticante, não daria jamais indulgência ao governador, nem dentro da Igreja.
Durante a cerimônia, animado com tantas personalidades políticas, o padre entrou no clima e saudou os noivos tecendo loas a figura de José Richa e de seu filho, ali presente, o prefeito Beto Richa. E só um beliscão de dona Maristela, firme e forte, segurou o governador Requião, que já ameaçava sair porta afora, indignado com o comício religioso.
Mas o melhor ainda estava por vir. Na feérica festa para mais de mil convidados no Clube Curitibano, a mesa do chefe da Casa Civil, Rafael Iatauro, acolheu o governador e as esposas de ambos. Nisso aparece o conselheiro do Tribunal de Contas Heinz Herwig para os cumprimentos de praxe. Logo após amenidades, a conversa, obviamente, se encaminhou para a política, e Requião desferiu a frase da noite:
- ''Não aguento mais o meu governo. Só tem ladrão''.
Em guerra tribal
Desabafos como este, em pleno casamento e diante do presidente do Tribunal de Contas, exatamente o homem encarregado de fiscalizar as contas oficiais, não devem causar grande surpresa em se tratando do governador Roberto Requião. Mas demonstra que ele tem a exata dimensão de que o tri-governo está se transformando numa África Equatorial.
À medida em que se aproxima o fim da linha do mandato atual, que começa com as eleições municipais no ano que vem e se conclui na eleição majoritária de 2010, do sucessor ao Palácio Iguaçu, os grupos internos se enfrentam com paus e lanças, numa verdadeira guerra tribal onde será difícil sobrar alguém intacto.
Da imprensa oficial, o mais recente escândalo, que chegou aos jornais anteontem, passando pelo IAP, no começo da semana, e retroativamente aos recursos das ONGs, dos cartões funcionais, dos desmandos no Porto, sem falar na distribuição de medicamentos de alto custo e, no caso do leite, envolvendo o vice-governador, Orlando Pessuti, o terceiro governo Requião passou a produzir denúncias diárias. E chega tudo de graça para a oposição, com documentos, fatos, números e nomes, saindo do forno do próprio governo. A ansiedade com o fim da boquinha se espalhou entre o primeiro, segundo, terceiro e todos os escalões da equipe e, a não ser que o governador dê um basta, fica difícil saber onde é que isso tudo vai dar. Há que se lembrar que a austeridade com a chamada coisa pública e o combate intermitente à corrupção sempre foram partes essenciais da carreira política do governador Requião. Pelo menos na teoria. E lamentar o leite derramado em festas de casamentos da fina flor da sociedade curitibana não condiz com os discursos inflamados, de dedo em riste, contra os adversários, sempre apontados como eternos ladrões dos cofres públicos. Mas pode ser um sinal.
Para quem assiste à beligerância de fora, o melhor é imitar a imprensa argentina em dia de jogo entre os dois arqui rivais, Brasil e Argentina: que percam os dois. Ou no caso, que percam todos.





