RUTH BOLOGNESE
Por linhas tortas
Dizia a Vó Maria que quem cospe pra cima cai na cara. Vamos deixar pra lá a obviedade técnica da expressão num planeta onde a gravidade é lei, vamos passar por cima do português tortuoso praticado por uma italiana das antigas e vamos reconhecer que a frase é nojenta mesmo. Mas que às vezes, no sentido figurado acontece, é uma verdade incontestável.
O grande número de leitores (passam de 50, contando os familiares) que acompanham diuturnamente esta coluna são testemunhas de fé do quanto tem se criticado as estripulias, também diuturnas, do governador Roberto Requião desde que assumiu, no longínquo ano de 2002, o governo do Paraná. Por dois motivos pueris, mas nem por isso, menos importantes: a crítica é função básica do jornalismo independente e, como todo mundo vê, o ilustre personagem do qual se fala não precisa ir muito longe para cair na boca dos adversários, da imprensa, do povo, enfim. É tão pródigo em produzir farpas e mais farpas contra si mesmo que lembra o assessor do homem das facas no circo, aquele que fica na roda.
Mas, no meio desta avalanche do contra neste governo, a voz experiente do colega Luiz Geraldo Mazza, num comentário radiofônico nesta semana, despertou um clic. Como é sempre de bom alvitre se inspirar nos mais velhos (e como é bom para uma mulher poder dizer isso depois dos 30, bem, dos 40, tá bom, tá bom, depois dos 50), a visão do Mazza no meio da fumaça esclarece muito. E é verdadeira: nesta cruzada absurda a que se impôs no chamado tri-governo, Roberto Requião anda trazendo à tona, e espalhando pelas margens, quilos e quilos de poeira que o paranaense, este homem cordial e sempre avesso a conflitos, preferia ver debaixo de águas turbas.
Já se falou aqui na chacoalhada que Roberto Requião deu na imprensa curitibana que, historicamente, sempre foi uma simpática mistura de coluna social a favor da ideologia palaciana, fosse ela caipira à esquerda, como a de José Richa, desenvolvimentista-belezinha como a de Álvaro Dias ou cosmopolita-empinada, como a de Jaime Lerner. Segurando a mídia técnica do governo, Requião contribuiu mais para a independência da imprensa do Paraná do que todos os discursos, insuflados pela cerveja com vodka, contra a ditadura dos patrões que os coleguinhas fizeram nas mesas de bar nos últimos 60 anos.
Pelo livre pensar
Agora, nesta querela com o Ministério Público do Paraná, uma instituição criada para defender os cidadãos-irmãos-camaradas das manhas e desmandos de governos, empresas, grupos e deles próprios, incensada a beça, o governador ousa questionar benefícios e salários dos senhores promotores e procuradores. E aí, obriga a tal sociedade civil organizada do Paraná, aquela que lê (e consegue captar as mensagens) de jornais e das revistas Veja da vida, a separar o Ministério Público dos seus próprios membros.
E assim, aos trancos e barrancos, vamos encasquetando com uma visão mais real daquelas instituições que compõem esta comunidade de gente de todas as raças e credos. Aprendendo a reverenciar a importância de cada uma delas do Tribunal de Justiça ao Ministério Público, da Polícia à Assembléia Legislativa sem renunciar ao direito cidadão de cobrar empenho, comportamento idôneo e seriedade. E tudo isso graças a quem? Graças ao intrépido governador Roberto Requião.
Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas quem acreditar que o nosso comandante-em-chefe age movido pela louvável cruzada de cultivar, nestas terras frias, o livre pensar, borrou-se. Ele aposta no desgaste instantâneo de qualquer instituição que ouse questionar um governo tão perigosamente exposto e com desempenho econômico e social muito abaixo da crítica. É um El Supremo travestido de Deus e, assim, acaba escrevendo certo por linhas...
Mas chega de cuspir pra cima. Porque senão, sai de baixo que lá vem o cuspão. Ai que nojo!





