RUTH BOLOGNESE
Apenas pelos vinténs
No orçamento estadual, a Assembléia Legislativa recebe o equivalente a 3,10% da receita líquida de tudo o que o Paraná arrecada. É um bom dinheiro, sim senhor. Cada um dos 54 deputados recebe mais ou menos uns R$ 50 mil reais mensais, aí incluído o salário e mais as verbinhas de representação, etc etc. É muito mais do que um salário, é um rendimento capaz de fazer a felicidade geral de qualquer brasileiro acima e abaixo do Equador.
A atual legislatura, com uma ou duas exceções, é certamente a pior que passou pelo plenário da Casa do Povo desde a instalação da Quinta Província do Paraná. Francamente, é de uma pobreza de formação, informação e ação que dá até dó. A distância que separa o Paraná real, onde se demanda um debate sério e qualificado sobre temas de primeira linha, desde pesquisas agrícolas até transplantes de órgãos, e a capacidade dos nossos representantes de entender qualquer assunto que não sejam os próprios vencimentos e a proteção a qualquer custo dos interesses do Governo de plantão no Palácio Iguaçu, é infinita.
Recentemente, um veterano jornalista, frequentador dos gabinetes e do plenário da Assembléia Legislativa há muitos anos, decidiu afastar-se de lá por uns tempos. Aceitou convite para assessorar um secretário de Estado. Motivo: o ambiente carregado da Casa, eivado de mesquinharias, fofocas sem fim, pequenos favores e jogos de interesses pessoais, estava a lhe fazer mal ao coração.
Como foi que chegamos a tal ponto? Votamos neles, uai. Mas votamos neles por falta de opção melhor, escolhemos o menos pior, fechamos os olhos e seja o que Deus quiser. A política à la Renan Calheiros e sua amante, que aproveita o momento de celebridade e expõe a periquita na Playboy em troca de um dinheirinho, afasta qualquer pessoa de bem dos seus quadros. E aí entram os ladinos para ganhar dinheiro fácil. Salário de R$ 50 mil, quem há de recusar?
Duas mulheres
A violência é eterna reincidente. E entre agosto e setembro atingiu duas jovens mulheres curitibanas, em situações diferentes, mas igualmente trágicas. Já foi relatado aqui o calvário de Ana Claúdia Caron, de 18 anos, supliciada e morta por dois menores no final de agosto. Nesta segunda semana de setembro, Patrícia Cabral da Silva, de 22 anos, passou de vítima a indiciada por suspeita de ter planejado o assalto e combinado um tiro no próprio corpo para receber indenização de uma lanchonete do posto de gasolina onde trabalhava. Já seria absurdo demais imaginar alguém disposto a se submeter a um tiro em troca de algum dinheiro. Mas é inimaginável uma grávida tramar um atentado contra si e um filho em formação, aconchegado no lugar mais seguro do mundo, o útero materno.
O que assustou, no caso de Ana Claúdia, sequestrada em pleno centro de Curitiba, ainda de dia, quase na frente do namorado que a seguia em outro carro, foi a absoluta fragilidade em que se encontra a população curitibana. Não há nenhuma fórmula, nem policiamento, nem prevenção ou ação rápida da segurança, que sirva de alento para um cidadão em perigo por aqui. É cada um por si e Deus que nos ajude.
Além do previsível
No caso da jovem grávida, ela se tornou notícia nacional pela indignação contra um bandido que, depois de obter o objeto do roubo, o dinheiro do caixa, ainda se volta e atira sem motivo. Extrapolou todo e qualquer parâmetro de violência. O tiro que Patrícia Cabral recebeu passou a milímetros do feto e a gravidez só chegou a termo porque foi feita cirurgia de emergência, e a mãe, acompanhada por equipe médicas de alto nível. Nascida a criança, uma menina, chamada de Angelina, surge a gravação com um diálogo entre a mãe e um dos assaltantes, revelando a trama. A polícia investiga agora a autenticidade da fita.
Todas as fêmeas são regidas por hormônios que deflagram comportamentos diferenciados durante várias fases da vida. Quando grávidas, por exemplo, se voltam exclusivamente para a proteção da cria. Mais do que natural, é instintivo, a garantia da sequência das espécies. Se a perícia provar que a grávida Patrícia planejou receber um tiro na barriga para receber suposta indenização de R$ 150 mil reais do patrão, reverteu-se aí o mais lógico, e o mais forte, dos instintos, o materno.
Mestre Guimarães Rosa escreveu que a surpresa pode mais do que a dor. Será que a ambição supera o instinto de proteção?
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