RUTH BOLOGNESE
À mercê do crime
Além de toda a violência gratuita e o final trágico, o sequestro e a morte de Ana Claúdia Caron, 18 anos, em Curitiba, há duas semanas, continuam voltando à cabeça nas horas incertas. Para além do lamento por uma vida que mal começou a ir embora, e pela solidariedade com a dor da família, o que choca na história da menina é a certeza de que a violência não tem mais barreira de proteção. São pequenos detalhes deste crime que definem o que nos espreita nas grandes e médias cidades brasileiras.
Aparentemente, Ana Cláudia estava cercada de todos os cuidados que qualquer pai, ou mãe, recomenda hoje ao ver o filho pegar a porta da rua. Quando foi sequestrada, era cedo ainda, por volta das 19 horas, ela estava no centro da cidade, cercada de gente por todos os lados, numa rua que não se pode chamar de perigosa, próxima a um shopping de alto padrão, de carro, e com o namorado a segui-la, também de carro. Ambos iam para uma academia de ginástica. Nada mais classe média curitibana, ou londrinense, ou maringaense, do que isso. E foi a partir daí que Ana Claúdia encontrou seu destino de horror pelas mãos de dois menores drogados e armados.
Não existe neste cenário nenhum sinal que se possa atribuir à vítima um mínimo de distração ou risco: como o de circular pela Capital altas horas da noite, ou passar por uma rua escura, sozinha, ou estar mais distraída por causa de um drinque, ou longe do burburinho urbano. Ou mesmo de ter ido namorar em paz, num sítio distante, como fez aquela menina, Liana Friedenbach e o namorado Felipe Caffé, de São Paulo, num caso semelhante, no ano passado. Nada.
E é quando a violência se torna assim, tão banal e gratuita, a céu aberto e a sol a pino, que é mais assustadora e abrangente. A via crucis de quase cinco horas que Ana Claúdia percorreu pelas ruas de Curitiba, sem que o alerta imediato do namorado tivesse qualquer efeito no sistema de segurança oficial, derruba, de vez, a última, e pequena, fantasia de que a polícia existe pra proteger o cidadão.
Depois de Ana Claúdia, pensar no que nos reserva o próximo ato, é pesadelo. Um professor de Direito de Curitiba costuma dizer aos alunos que, cada vez mais, as grandes e médias cidades brasileiras produzem guetos, fortalezas cercadas de seguranças por todos os lados, que pode ser a própria casa, o local de trabalho, o shopping ou até o carro blindado. Mas nada disso reduz a condição do cidadão em perigo, quando ele cumpre o trajeto entre um e outro gueto. É nesta hora que o ataque se manifesta e a segurança se esvai. É verdade. E, cada vez mais, o perigo ronda o gueto e já começa derrubar a última barreira. Sem retorno, pelo visto.
A verdade no Cordel
E para não dizer que tudo é tristeza, reproduzo as rimas de cordel que o leitor Jose Orair da Silva enviou, da própria autoria dele, com verdades que nem sempre se admite na imprensa falada, escrita e televisionada. E, ainda por cima, com fino humor. Vale a leitura:
Criticar a imprensa é pecado!
Critique o legislativo, o executivo e até o judiciário.
Critique o alto salário do político salafrário.
Critique o padre e o prefeito.
Critique quem não cumpre direito com a sua obrigação.
Critique o papa, a igreja evangélica, o pastor da televisão,
Mas a imprensa não critique não...
A imprensa está acima de tudo e não tem nenhum defeito.
Não é instituição humana.
Tudo que faz é perfeito e pode a todos criticar,
pois é o guia da nação.
Criticar a imprensa é pecado, é crime de opinião.
Eu a sigo, reverente, e ela marcha à minha frente como um farol na escuridão.
Me diz o que é certo e errado e eu reconheço embasbacado, que ela sempre tem razão.
Dizem que sou alienado e que eu não paro pra pensar, e eu digo: pra que pensar ?
Se a imprensa pensa por mim e eu sou tão feliz assim?''
Cordel de José Orair da Silva





