Primeiro, os meus

Vamos deixar à dimensão humana de cada um o sentimento atávico de proteger primeiro os mais próximos, os de sangue. Do jogador de futebol que recebe a grande bolada em euros, ao cantor sertanejo que estoura nas paradas e até o traficante mais reles, não existe exceção: em qualquer caso de mudança de padrão de vida, a compra da casa para a mãe vem antes ainda do próprio conforto. Exemplos? Tem aos milhares. Quem não viu dona Helena, 63 anos, mãe da dupla Zezé di Camargo e Luciano, reclamar de depressão na gaiola dourada, com direito até a arrumadeira, montada pelos filhos de Francisco especialmente para ela. Acostumada no batente de sol a sol, já se faz tarde para dona Helena viver vida de madame. Mas os filhos querem mais é dar de tudo para fazer dona Helena mais feliz.

É, portanto, o amor familiar, de filho pra mãe, de pai pra filho, de irmão para irmão, que está na base da prática inevitável desta palavra estranha - nepotismo -, a espalhar uma rede de aparentados pelo serviço público brasileiro, desde sempre. Prática essa que levou, nesta semana, o próprio governo do Paraná a divulgar a lista de mais de 3 mil e 600 nomes que compõem o que o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, chamou de ''boquinhas'', onde se vê sobrenomes muito conhecidos da cena política local. Ou simplesmente, aquele contingente de funcionários muito bem pagos pelo Governo, onde a primeira (e quase sempre, única) exigência de qualificação está na proporção direta da proximidade com o vencedor da última eleição. Captaram?

E deve ser o amor familiar, certamente o é, que leva o governo do Paraná a escancarar a lista da ''boquinha'' para todo mundo ver e onde a família inteira do Governador aparece muito bem empregada. O recado foi cristalino: ''Vejam na lista o quanto ganham todos os Requiões que emprestam o privilegiado QI para o bem do Paraná e me deixem em paz, porque demitir qualquer um deles, nem pensar! Quer dizer então que toda forma de amor vale a pena? Vale, sim, mas não para garantir o bem estar da parentada e, pior, abrir a porteira exemplar para tudo quanto é chefete de esquina, com poder para nomear qualquer cristão, encher-se de razão e indicar o primo mais próximo.

Para defender tão longo e familiar amor, o governador Requião opta por abrir mais uma frente de batalha, desta vez com o Ministério Público do Paraná, que ousou cobrar-lhe cara a cara, tão descarado nepotismo. A Assembléia Legislativa fechou-se em copas, depois que uma sogra-fantasma apareceu no pedaço e o Tribunal de Contas se finge de morto. O Tribunal de Justiça renovou o eterno troca-troca do ''eu contrato seu sobrinho no meu gabinete e você contrata o meu primo no seu'' e deu o feito pelo não feito.

Como se vê, não há qualquer sinal no horizonte de que um parente, um sequer, venha a perder o cargo em qualquer setor do poder público do Paraná.

Diante da situação, vamos deixar aos poderosos, a lei. E que o Ministério Público do Paraná insista, até o fim, no cumprimento dela. E ficar, cá entre nós, com apenas uma pergunta sobre esse desaforo constante que nos faz a banda oficial: que respondam, na sinceridade, se fosse mesmo pra valer o critério ''competência'', quem dos atuais parentes empregados estaria na função que está, ganhando o que ganha? Com a palavra, o signatário da contratação.


Operação abafa

A semana passou com o prefeito Beto Richa se fingindo de morto e enterrado e assim vai permanecer até que a história da sogra-fantasma de um assessor, contratada pelo gabinete dele na Assembléia quando era deputado, vire pó. O prefeito tucano aposta na conhecida tendência dos paranaenses em deixar pra lá os deslizes oficiais. E está coberto de razão: ninguém nunca mais se lembrou das placas superfaturadas do encontro da ONU em Curitiba. Só pelo fato de serem escritas em inglês e português custaram três vezes mais do que o preço do mercado.

A sogra-fantasma já é uma nuvenzinha no horizonte. Daqui a pouco, pluft.

mockup