Mesmo sem ter nada a ver uma coisa com a outra, cérebros que detém alto teor de neurônios e políticos de nomes tradicionais e muito conhecidos na Capital se juntaram nesta semana para tentar salvar a lavoura do prefeito Beto Richa. Não que ele cultive transgênicos ou mamonas assassinas, mas sim porque uma sogra entrou na seara muito bem guardada da imagem de seriedade e austeridade com que o filho do finado governador José Richa sempre se apresentou aos paranaenses. E fez um estrago maior do que a lagarta da soja nos verdes campos do nosso Estado. Mas a operação Abafa-Sogra não teve como objetivo apenas passar um sabão de soda na bela figura do Alberto Roberto, mas evitar, também, que a lama suba as tamancas de nomes que fizeram (e ainda fazem) história na Assembléia Legislativa do Paraná.
  O deputado Alexandre Curi, por exemplo, do PMDB, participou de outra reunião com assessores do prefeito da Capital e com o líder do PSDB, Valdir Rossoni, logo no início da semana. Encontro de tal envergadura que um avião foi disponibilizado para buscar no interior o deputado Ademar Traiano, do mesmo partido do Beto Richa, PSDB. Depois de tanta dedicação a uma causa e de hesitações de todos os lados, saiu a tal sindicância na Assembléia Legislativa para ‘‘apurar’’ a questão da sogra do chefe de gabinete do prefeito, Ezequias Moreira, e seu holerite espantoso, manchado daquele batom que costuma aparecer nas peças íntimas masculinas em flagrantes inexplicáveis. Mancha tão evidente que levou Ezequias Moreira, inicialmente colocado na condição de ‘‘amigo de mais de 20 anos da família e inocente até que se prove o contrário’’ pelo prefeito, a pedir demissão na última quinta-feira.
  Episódio encerrado? Nunquinha. Porque a sogra não continua colocando apenas Beto Richa como um prefeito que demanda um bom Vaporeto na cueca, mas remonta aos tempos da brilhantina do eterno presidente da Assembléia Legislativa, Anibal Curi, finado avô do deputado Alexandre, que lhe herdou a estatura (média-baixa) e alguns resquícios da esperteza histórica. Este mecanismo de contratação era ‘‘natural’’ naqueles anos dourados, em que o bom e velho Aníbal mantinha deputados, delegados, cartorários e até juízes sob a rédea curta de um empreguinho para um primo ali, outro empreguinho para um sobrinho acolá. Entenderam agora porque o menino Curi foi indicado para comandar a sindicância sobre a sogra contratada por um gabinete que não existe mais há pelo menos seis anos? É claro que o aparecimento de uma sogra, logo uma sogra, etérea e jamais vista nos corredores da Casa do Povo, é um perigo. Ainda mais depois que o ex-presidente Hermas Brandão, hoje esquecido numa sala de conselheiro do Tribunal de Contas, fez da reforma administrativa um mote de re-re-eleição. Não dizia Hermas, batendo no peito, que funcionário-fantasma na Assembléia nunca mais? E agora? Olha o batãozinho aí, manchando tricolines de sambas-canção a torto e a direito!

Menos mentiras
  O assunto é sempre o mesmo, cansa quem escreve e quem lê, mas nem por isso deixa de trazer à superfície, pela undécima vez, o descaramento das nossas autoridades e de nossos parlamentares: eles desperdiçam um tempo enorme para montar explicações e justificativas ridículas sobre graves desvios de conduta como manter, por exemplo, uma sogra na Assembléia, paga com dinheiro público, (nosso dinheiro, nunca é demais lembrar), sem nunca ter batido ponto. Mas, neste momento, o fundamental é esconder a mancha de batom: e se a moda pega? E se, de repente, outros agregados vierem à tona ? E se o assessor recém-demitido do gabinete do prefeito Beto Richa começar a dar com a língua nos dentes? Afinal, o mais recente escândalo do País tropical começou com um caso inofensivo entre o presidente da Câmara ainda animado com as coisas e uma bela jornalista de Brasília.
  Com tantas manchas de batom espalhadas por aí, a semana vai começar com o prefeito curitibano e a Assembléia Legislativa suspirando de alívio porque o bode foi retirado da sala. Vai ficar faltando apenas a explicação para tamanho descalabro. Ou alguém aí topa apostar qualquer tostão que os cérebros abarrotados de neurônios da prefeitura e os deputados espertinhos não vão encontrar uma saída para justificar tudo? Ah, se vão.

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