Um homem chamado Beto


Que se preparem os paranaenses: depois de uma longa fila de nomes tradicionais no Palácio Iguaçú, como Bento Munhoz da Rocha Neto, ou históricos, como Afonso Alves de Camargo, ou ainda símbolos de austeridade, como Parigot de Souza e Hosken de Novaes, ou inovadores como Jaime Lerner, o Paraná poderá ter um governador chamado simplesmente Beto.

Não que nomes pomposos, ou comuns, tenham lá alguma relação com competência ou maneira de governar. Se fosse assim, o alagoano de pedrigree político, Fernando Collor de Mello, não teria dado o vexame que deu e Lula seria apenas um líder sindicalista em São Bernardo do Campo. E nem se trata aqui de levar o assunto para uma área tão inofensiva como um Lula lá ou um Beto cá, mas sim de mostrar que as forças políticas do Paraná já preparam um grande arsenal de coligações e frentes amplas que nem levam em conta mais as eleições municipais em 2008 e, sim, a corrida para o Palácio Iguaçu, em 2010.

E hoje, vejam bem, hoje, o nome que pontua qualquer análise para a sucessão da era Requião é o de Beto Richa, filho do homem que abriu a temporada democrática pós-ditadura no Paraná, mas caminhante de vereda própria, muito menos herdeiro das idéias e ações paternas do que poderia se esperar. Postura compreensível até, porque Beto é de outra seara, nascido em Londrina, mas criado em Curitiba, sob as asas do pai governador e nem de longe forjado, primeiro na superação das poucas posses e depois na luta política pelas liberdades básicas, dois itens elementares na formação de um ideário político. Mas, também, não é de personalidades e heranças que se quer falar aqui.

Ungir e avançar

Entremos no tema, pois, que o espaço é curto e a paciência de quem lê vai se esgotando. O PSDB, maior partido de oposição no Paraná, arma para Beto Richa uma condição invejável do ponto de vista partidário: é o candidato à reeleição para a prefeitura da Capital (o maior colégio eleitoral do Estado) e, dois anos depois, o ungido ao Governo e não se fala mais nisso. Muitos hão de estranhar articulação tão prematura diante de um Partido que tem Gustavo Fruet, por exemplo, o deputado paranaense que congrega o maior patrimônio ético e de competência parlamentar em Brasília. Ou o senador Álvaro Dias, merecedor de atenção pela idade (que, todos sabem, ele prefere dispensar), mas também pela experiência e pela marca eleitoral vitoriosa que possui.

Mas estas são considerações que o grupo em torno do prefeito Beto Richa, a começar pelo presidente do PSDB, deputado Valdir Rossoni, não quer nem ouvir falar. O caminho em direção ao Palácio Iguaçu está traçado e agora o objetivo é percorrê-lo.

Como a vida (e a política) são pródigas em rasteiras, em desfazer projetos milimétricamente arquitetados, o grupo que tanto se esmera em transformar um homem chamado Beto no próximo Governador, sofreu o primeiro revés nesta quinta-feira passada: um arsenal de denúncias caiu sobre o mais próximo assessor do prefeito de Curitiba, Ezequias Moreira, aquele que fica a apenas uma porta do gabinete oficial. É tudo coisa da Oposição? É, sim senhor. É o reverso para a condição favorável de Beto Richa nas pesquisas? É, sim senhor.

Mas é, também, um fato que trás alguns lembretes importantes, neste momento, para o atilado grupo que cerca o prefeito de Curitiba. Antes de chegar ao Palácio Iguaçu, Beto Richa terá que se reeleger. Para se reeleger terá que fazer um bom acordo político através da figura do vice, que afinal vai governar Curitiba por dois anos e será peça fundamental na corrida para o Governo. E, mesmo que muita gente prefira esquecer, olhem que distração perigosa, Roberto Requião tem ainda três anos como Governador pela frente.

Como dizia a Vó Maria em relação às dificuldades que os jovens noivos se deparam no casamento: é preciso que o casal coma, junto, um saco de sal inteirinho. É o tempo necessário para que se conheçam como realmente são. O homem chamado Beto e seus asseclas mais afoitos também terão que comer um bom saco de sal para aprender como atuar com precisão nas artes da política.

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