RUTH BOLOGNESE
Entre a luta de classes...
Quem foi o grande pensador que disse que o nacionalismo é o último refúgio dos canalhas? Há divergências, mas o pensador inglês Samuel Johnson é considerado o autor da frase, salvo grande engano do tradutor lusitano. Como não se inventa a roda, vamos adaptar, mais uma vez, a frase do inglês para nossos dias e temos agora, em pleno universo petista, o último refúgio dos incompetentes: a luta de classes.
Uma conversa, nessa semana, com um admirador de Lula sob todas as coisas, tão fanático que considera culpado o cinegrafista que filmou o gesto top top top do Marco Aurélio Garcia, mostrou que os petistas colocam toda a incompetência do governo, corrupção incluída, como resultado da luta de classes que Karl Marx eternizou na sua sabedoria filosófica. A tal luta de classes seria então o que está por trás das críticas da elite brasileira para derrubar o operário Lula do poder.
Uma elite brasileira, diga-se de passagem, que nem pertence ou nem leva em conta a felicidade dos banqueiros, os verdadeiros pilares de todo governo brasileiro que se preza, expressada semestralmente nos balanços extraordinariamente lucrativos no período petista. Dá até dó.
Todos os governos, da extrema direita à extrema esquerda, costumam jogar naqueles que tentam desestabilizar as forças democráticas as justificativas para seus próprios erros. E Lula comanda um governo com a opção preferencial pelos quadros do PT, que servem tanto para dirigir uma estatal de alto calibre como controlar o transporte aéreo nacional.
... e a incompetência
É tão óbvio, mas não custa lembrar: da mercearia do Zé da Esquina à presidência da Petrobrás, o que faz a diferença na hora do pega pra capar é a qualidade dos recursos humanos. Não tem luta de classes que se sobreponha à competência para governar. Temos até um exemplo em casa, e recente, que é a trajetória do arquiteto Jaime Lerner, o governante mais ousado e criativo que passou pela Prefeitura de Curitiba e depois pelo Palácio Iguaçu.
Enquanto se cercou de técnicos de fora dos partidos, baseado apenas na capacidade de cada um, Lerner realizou grandes transformações com visão de longo prazo. Ao começar a ceder espaço para as indicações partidárias, perdeu-se no meio do caminho e terminou o segundo mandato pedindo água, com colaboradores vendendo Banestado, Sanepar, Copel e mais um pouco.
Mesmo Roberto Requião, que sempre se considerou o ó do borogodó como administrador austero e competente, concluiu o primeiro mandato, aquele lá de trás, da década de 90, com saldo de qualidade e realização de obras. Periclitou no segundo mandato, na mesma proporção que fez escolhas com o coração (família e cia.) ou com o PT e PMDB de coadjuvante. Padre Roque está com a palavra, acompanhado das febres aftosas da vida na nossa agricultura. E desabou neste terceiro período, quando acrescentou às coisas do coração um elemento devastador para um homem público: Não posso deixar de fora do meu governo aqueles fiéis companheiros que estiveram comigo a vida toda. Bingo!
Eis aí uma equipe que, salvo uma ou duas exceções, é de uma mediocridade tridimensional. E uma administração onde se corre o risco de apagão portuário, onde soja transgênica é inimiga e ninguém sabe exatamente se o Paraná tem déficit ou superávit nas contas.
Então, é a luta de classes que interfere nas decisões de governo ou é o grande líder da oposição, o madeireiro tucano e grisalho, de nome Valdir Rossoni, que atrapalha por demais aqui no Paraná? Pura conversa para ninar rebanho bovino. O que dá o tom num governo é gente competente, com conhecimento de causa e que pega o touro à unha no dia-a-dia da administração pública. Seja ela do PT ou do PMDB. Se na base do exercício da democracia está a atuação partidária, na base do poder executivo está a capacidade de tocar a máquina. Seria um paraíso se as duas vertentes andassem juntas, uma complementando a outra. Mas quem faz política desde a faculdade raramente tem tempo e paciência para se debruçar sobre os livros. Por isso é que uma das mais elogiadas características de um líder é justamente a vocação nata para unir em torno de si gente com boa formação e talento. Carisma é privilégio do líder e o resto tem mais é que mostrar serviço.
O presidente Lula fez as concessões de praxe no primeiro governo, cedeu o que tinha e o que não tinha no segundo e agora vem o petismo com essa peneira imensa para tapar os olhos brasileiros que responde pelo nome de luta de classes.
Uma pinóia, isso sim!





