Mulheres que vivem em Curitiba sofrem, como todo mundo, a influência do meio ambiente. Passam a maior parte do ano embaladas em roupas de lã, elegantes por fora e disfarces perfeitos para esconder pneuzinhos indesejáveis e depilações adiadas por dentro. Além de garantir um tom de pele entre o branco puríssimo e o branco gelo até o início de dezembro, quando o sol aparece.
  As botas e os sapatos fechados separam, por tempo indeterminado, a curitibana e a visão do próprio pé e é fator de distanciamento entre casais: depois de uma rusga qualquer, aquela antiga tática de ir encostando o pezinho na canela do parceiro antes de dormir só provoca gritos assustados e pulos rápidos diante daquele dedão gelado se aproximando.
  E existe uma teoria, não confirmada nem assumida oficialmente por nenhum instituto respeitável de pesquisa, nem pelo Instituto Jaime Lerner, que o fato do número de carros fabricados por ano aqui ser maior do que o nascimento de crianças, tem relação (epa!) direta com o frio. Nas noites geladas, como as que ocorrem nesta semana na Capital, qualquer tentativa do marido curitibano ser mais, digamos, criativo, no leito conjugal tem 85% de possibilidade de deixar-lhe o traseiro exposto. O que significa interrupção imediata do rala-rala. É o efeito redutor do vento gelado nas partes baixas.
  Por causa destas influências todas, a curitibana desenvolveu ao longo dos mais de 300 anos gelados e nublados, uma capacidade única neste Brasil tropical, a de encarar uma ceroula bege sem perder um milímetro do tesão pelo companheiro. Há casos, raros, de curitibanas que conseguem manter os olhos abertos durante o tempo inteiro, superando, com coragem e animação, a visão das ceroulas justas num marido de pernas finas.
  Depois de experiências tão singulares, afeitas apenas à Capital do Paraná, a mulher curitibana mostra outra capacidade admirável, até mais quente do que as peripécias na cama, e mais aconchegante e familiar. É um pendor especial para fazer chá, isto mesmo, chá de todos os sabores e combinações, de gengibre com laranja a anis com maracujá. Basta o tempo esfriar um pouco e lá está o aroma dos chás pelas casas e apartamentos. Pode-se dizer que este é o cheiro de Curitiba no inverno, como Milão, dizem, cheira a perfumes variados. Eis aí lado verdadeiramente caloroso desta vida de mãos, pés e narizes gelados e braços cruzados que vai inverno, vem inverno, continua na eterna busca de temperaturas dois ou três pontos acima do termômetro.
  Mas creiam, Senhores e Senhoras habitantes de outras paragens mais quentes deste pequeno pedaço sulista que nos cabe habitar: em nenhuma cidade do mundo a criatividade doméstica chegou ao ponto alcançado por um morador de apartamento no bairro chic do Batel, nesta semana fria. Pois que o homem decidiu assar lingüiça Bizinelli na própria lareira, isso mesmo, na lareira, já que a churrasqueira (que toda classe média da Capital que se preza tem) está instalada na varanda, onde o vento gelado que sopra no sétimo andar é capaz deixar um ser humano duro e roxo em questão de minutos. O churrasco de lareira aconteceu na quarta-feira e até agora o prédio não cheira a chá com aniz, nem detergente, nem sabonete com pasta de dente pela manhã, como é comum nos edifícios dos curitibanos limpinhos. É cheiro de fumaça de churrasco e ninguém tasca. São 17 famílias morando na frente da fornalha do Costelão do Catarina. A pleno vapor.

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