Por trás da cortina
A velha frase de efeito de Birsmark, o chanceler de ferro, estadista mais importante da Alemanha do século 19, voltou com tudo nesta trágica semana brasileira. Era mais ou menos assim: ''Se o povo soubesse como são feitos os governos, as salsichas e os jornais, não sobraria pedra sobre pedra''.

Verdades inconstestáveis
Homem poderosos, aos nossos olhos de súditos e eleitores, virariam pó se pudéssemos olhar atrás do buraco da porta. Assim como, se nos fosse dada uma visão do porquinho vivo adentrando o matadouro e 15 minutos depois, moído e devidamente embalado, saindo do moedor em forma de salsicha, recuaríamos todos, mais assustados do que enojados. Dos jornais, nem se fala: a pressa em fechar as páginas diárias faz com que, como diz Veríssimo, só o nome do Zico sai com a grafia correta. E olha lá.

Mas vamos colocar a condição humana nesta parada dos governantes e aí podemos justificar quase tudo, de uma dor de barriga daquelas num momento impróprio, até a perigosa decisão de se mastigar mamona in natura num encontro presidencial. Daí o cuidado com que homens públicos se cercam de assessores, gabinetes indevassáveis, seguranças e, quando a vaca vai pro brejo mesmo, se puderem, vendem até a mãe para impedir que aqueles três segundos de bobeira saia das quatro paredes.

Por intuição ou questão de sobrevivência, homens poderosos sabem que baixar à condição humana os torna iguais, vulneráveis a tal ponto que um passante qualquer tenha o direito de lhes passar a mão na bunda. Ou pior, muito pior, no caso dos governos, colocar em dúvida a capacidade que se atribuem de solucionar todos os problemas.

Aquele gesto feito pelo conselheiro presidencial, Marco Aurélio Garcia, o conhecido ''top-top'' obsceno que os homens aprendem quando meninos e carregam pela vida afora, flagrado dentro do Palácio Alvorada, se insere neste limiar entre o que se mostra e o que não é permitido para menores dentro de um governo. Numa circunstância qualquer, tal gesto seria um desastre de marketing para a imagem de um assessor de fino trato, com alguns respingos sobrando para o assessorado mor. Na quinta-feira de uma semana em que o País acompanhou a contagem fúnebre do maior desastre aéreo da sua história, o gesto do homem do Rei saiu do gabinete presidencial para ferir corações e mentes brasileiras.

Não se trata aqui de se colocar a dimensão humana no pedaço, como quis justificar o graduado assessor do governo Federal, nem jogar no amplo terreno da indignação o gesto desprezível. No descuido da cortina afastada, o Brasil inteiro viu pela janela a verdadeira postura do governo Lula, muito mais empenhado em salvar a própria pele do que oferecer um mínimo, um tico sequer, de pesar às vítimas.

Governos são feitos deste elemento cruel, o da sustentação do poder acima de tudo e a qualquer custo. Mas, e não sem uma certa dose de crueldade do lado de cá, existe uma linha que não pode ser ultrapassada nunca, aquela em que um povo inteiro consegue enxergar além da cortina, e toma conhecimento do que realmente é feito um governo. Pode acontecer de forma trágica, quando um Vladimir Herzog dependurado pelo cinto numa cela do Doi-Codi em São Paulo, mostrou a ditadura por dentro. Pode acontecer numa galhofa carnavalesca, quando Itamar Franco posou, alegre, ao lado de uma ''perseguida''. Ou, ainda pode acabar no último apelo dramático de um Collor isolado, implorando pelo verde e amarelo que nunca apareceu.

O ''top-top'' vibrante do ministro Garcia na noite de quinta-feira, ao comemorar a entrada da TAM no rol da culpa, tem tudo para se transformar na gota d'água. O Brasil inteiro viu do que é feito, por dentro, o governo petista. Se ainda há possibilidade de complacência, só o tempo vai dizer.

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