Um chinelo, uma cidade e a OAB
  Três episódios tidos e acontecidos nos limites geográficos desta terra de soja, cana e café, aqui nas partes mais baixas do mapa brasileiro, são distantes entre si, a manter apenas a medida de espaço, mas coincidem e se complementam: o trabalhador rural de chinelos de dedo de Cascavel que ensinou a um juiz o que quer dizer dignidade, a cidade de Londrina que se vestiu de preto para protestar contra o próprio luto e a OAB do Paraná que escolheu o caminho da justiça para corrigir a insensatez da Assembléia Legislativa, uma Casa de Leis que votou pela auto-aposentadoria de altíssimo padrão.
  Uma análise rápida e rasteira destes fatos mostra que mesmo aqui no Paraná, onde a alegada timidez de descendentes de imigrantes sem vocação para o protesto, e menos ainda para o conflito, fez história na quietude do nosso povo, começam a pipocar exemplos de inconformismo com a situação das coisas. Pouco mais de uma semana depois da humilhação pública, o trabalhador rural Joanir Pereira usou sapatos emprestados do sogro para substituir os chinelos de dedos e conseguiu comparecer à sua audiência de conciliação na Terceira Vara de Trabalho de Cascavel. O juiz Bento Luiz de Azambuja Moreira, um curitibano que havia considerado os chinelos de Joanir artefatos que ‘‘feriam a dignidade do Judiciário’’, arrependeu-se e se auto-julgou culpado ‘‘por excesso de zelo’’. Ao recusar o par de sapatos (usados) que o juiz lhe ofereceu, Joanir Pereira deve ter lavado a alma.

De preto
  Depois de um período de silêncio, talvez pela ressaca que o movimento ‘‘Pés Vermelhos, Mãos Limpas’’, lembram?, causou à cidade, Londrina voltou às ruas nesta semana, desta vez para derrubar a olímpica indiferença com que o governador Requião se comporta diante da onda de violência que atinge toda região Norte e se concentra ali. E o fez mesmo sem o prefeito Nedson Micheleti, ainda ontem um aguerrido bancário petista a insuflar as massas contra o grande Capital, mas que hoje, na condição de vidraça, teme os ‘‘maus fluidos’’ que tanta gente vestida de preto possa despertar. Evoé, Londrina, que, ao contrário do Morro do Alemão no Rio de Janeiro, não precisou de força-tarefa para reocupar o seu próprio quinhão urbano e foi sozinha para as ruas exigir paz e tranqüilidade.

Pela ética
  E quando os deputados estaduais já consideravam favas contadas a aplicação da vergonhosa lei que vai lhes garantir o futuro de aposentado americano, a OAB-PR reage e recorre ao Superior Tribunal Federal (STF) pra acabar com a festa. Seu presidente, Alberto de Paula Machado, resume o fundamento básico que deveria nortear todo e qualquer ato da nossa Casa de Leis: ‘‘o próprio legislador não pode estabelecer para ele uma regra melhor do que para o povo. Sob o ponto de vista ético e moral, isto é absolutamente reprovável’’. Mais claro e óbvio, impossível. Desta vez, quem lavou a alma dos paranaenses foi a OAB.
  Na conclusão destes três episódios fica-se com a certeza de que, por mais que a arrogância profissional faça um juiz humilhar um trabalhador ou por mais que a classe política hoje no Brasil nos presenteie, todos os dias, com uma nova qualidade de safadeza ou por mais distante que se coloque das obrigações éticas para as quais foi eleita, o brasileiro vai escolhendo o caminho. E agora, até mesmo o velho e bom paranaense, com sua timidez imemorial começa a sair da toca. Sozinho.

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