Caminhando
Aos 75 anos, minha mãe tem medo de morrer. Não da passagem em si, mas do nada que vem depois, de desaparecer sem deixar marcas, de ficar longe dos filhos. Mãe é sempre difícil de consolar porque colo e consolo são privilégios consagrados de quem nasce de alguém. Então, antes que a tristeza se instale, falo da vida para minha mãe, não a dela, calejada demais para uma hora dessas, mas das outras, daquelas que ainda estão caminhando e construindo a própria história e marcando pontos definitivos contra o lado de lá, o do nada.
Nesta semana contei pra minha mãe um pouco da história da Marleth Silva, uma jornalista aqui de Curitiba. De voz suave, gestos tímidos, pequena e magra, beirando os 40, essa moça de nome diferente e sobrenome comum correu mundo por conta da competência profissional. Ocupou cargos e funções de primeira em grandes revistas e jornais do País, (Veja, Jornal do Brasil), e era apontada lá fora como um dos sucessos mais qualificados destas terras do Sul. Mesmo assim, retornou. Silenciosa e discreta, instalou-se num jornal da Capital, não na frente da batalha, mas nos bastidores, e um dia apareceu num desses encontros em chácaras, os famosos churrascos de final de semana das redondezas curitibanas, com dois guris a tiracolo. Adotou-os já naquela idade em que, as estatísticas mostram, pais brancos e bem postos na vida se sentem espertos o suficiente pra não sair do orfanato carregando dois futuros problemas, com bagagem de carências e vivências a incomodar pelo resto da vida. Admirável Marleth, de trocar uma solteirice tranquila, de viagens internacionais e carreira promissora, pelo difícil caminho da maternidade tardia e dois órfãos imprevisíveis.

Mãe da mãe
Mas esta era a parte visível da vida desta moça nem alegre, nem triste, apenas silenciosa. Nesta semana, por conta da divulgação do resultado do prêmio mais tradicional da literatura brasileira, o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, Marleth Silva virou notícia, lugar sempre meio desconfortável pra quem tira dali o sustento diário. O livro dela, ''Quem vai cuidar de nossos pais?'', editado pela Record, é um dos dez concorrentes a Melhor Livro de Educação, Psicologia e Psicanálise escrito em 2006 em todo o País.
Nas páginas, a própria experiência colocada em frases e palavras: aos poucos o mal de Alzheimer, doença degenerativa que se manifesta por problemas progressivos de memória, inverteu os papéis seculares e Marleth foi se tornando mãe da própria mãe. Com a coragem dos mais reservados, ou talvez daqueles que guardam para si as emoções mais contundentes, a jornalista expõe no livro temas difíceis, como a morte, a solidão e todas as perdas que os anos vão deixando. E joga um pouco de luz sobre aquele momento inevitável, doloroso e complexo, onde o filho percebe que chegou a vez de passar a mão na cabeça dos pais. É o gesto definitivo.

História e sensibilidade
É preciso aliar a coragem à ternura para escrever sobre assuntos tão delicados, como Marleth faz, num tempo em que a grande maioria quer mais é olhar para o outro lado, o da superfície alegre e despretensiosa. Mas é preciso ser muito guerreira para delinear a própria vida, como Marleth faz, tendo como base o sentimento.
Foi por isso que contei a história dela para minha mãe, uma mulher que não se move por alegrias fáceis ou conversas amenas e, aos 75 anos, fragilizada, busca razões mais fortes para não ir embora simplesmente: ''Veja, mamãe, histórias assim é que nos ligam uns aos outros e nos mantém, perenes''.

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