RUTH BOLOGNESE
Sem querer, querendo
Ninguém discorda, nem mesmo o próprio governador Requião, mais perdido do que ceguinho em tiroteio, que este terceiro Governo ainda não engrenou e está muito, muito longe de ter um projeto pra chamar de seu. Pode até ter salvação, pode chegar ao fim da linha mais desmilingüido do que começou, mas apesar de todas as confusões armadas até agora, a beligerância com a imprensa do Paraná é a que merece todas as loas. Tenha lá o governador os motivos que tiver, sejam lá as razões corretas ou nem tanto, o fato é que pela primeira vez os paranaenses estão conhecendo o fluxo de recursos oficiais que jorraram para os meios de comunicação em troca de elogios e paparicos aos governos de plantão no Palácio Iguaçu. E fica claro, de uma vez por todas, que jornais, revistas, TVs e até jornalistas célebres construíram suas histórias de eficiência empresarial e competência profissional devidamente calibrados pelas verbas oficiais. Percebe-se aí como é fácil exibir números exuberantes de crescimento no organograma da empresa e alto padrão de vida sem ter que ralar no dia-a-dia do mercado.
O Paranaense Cordial
Desta conivência absoluta entre imprensa e poder que, com raríssimas exceções, foi a característica primeira de todos os Governos desde a emancipação da Quinta Província, nasceram dois mitos quase ridículos, de tão inconsistentes: o paranaense é um povo cordial, avesso à crítica contundente e os governantes que passaram pelo Palácio Iguaçu se não foram competentes, pelo menos não comprometeram o desenvolvimento do Estado. Daí que, nenhum dos tais ocupantes do poder executivo, tanto do Iguaçu como da prefeitura da Capital, e das cidades médias e grandes, sempre obtiveram no mínimo um bom quando pesquisas saíram a campo para medir as administrações locais. Muitos ex-governadores e ex-prefeitos até hoje se vangloriam de terem figurado entre os mandatários mais populares entre seus colegas de gestão no País.
Ora, então o paranaense é um povo muito do bonzinho? Pura ignorância dos fatos reais, castelo de cartas montado pelas gordas verbas que sempre compraram o silêncio cúmplice parte da imprensa: de redes de rádio comandadas diretamente de um estúdio do Palácio Iguaçu (aúreos tempos de Jaime Lerner), até a sustentação de jornais da Capital e jornalecos do cachaprego, todos sobrevivendo às custas do dinheiro público. Curitiba já teve 9 jornais diários, 9, minha gente, sem que o número de leitores subisse um milímetro.
Entre o dedo quebrado...
Por tudo isso, é que os repórteres com fronteira (entre eles, esta colunista) que se comportam, ora como garotos indignados, ora como provocadores prepotentes diante dos ataques do governador Requião contra a imprensa, deveriam pensar duas vezes. Está se abrindo um caminho interessante para o futuro da categoria no Paraná onde, de repente, os jornais teúdos e manteúdos tenham que começar a buscar a sobrevivência em outra freguesia que não o tesouro estadual. E a disputar espaço entre si, o primeiro passo (olha aí o que interessa à mão-de-obra disponível) para a busca de bons profissionais.
... e a independência
É sonho à moda antiga, mas o Paraná com uma imprensa independente e sem vínculos chapa branca, pronta pra o que der e vier, seria muito mais forte, falaria mais alto em Brasília, poderia cobrar (no bom sentido) muito mais ação dos governos locais e das bancadas legislativas, tanto federais como estaduais. E, com o tempo, o tal paranaense tão bonzinho, avesso a críticas diretas e contundentes, seria coisa de um passado tão distante quanto a eleição de político malaco.
Diante de um futuro tão promissor, caros colegas, vamos ser sinceros: ter um dedo quebrado de vez em quando ou um governador disposto a descarregar a raiva no primeiro microfone que lhe apareça, até que não é um preço tão alto assim.





