RUTH BOLOGNESE
Começar em casa
Lembrar uma época em que a imprensa lutou pelo direito de denunciar escândalos (das mordomias de Brasília, que deram prêmio Esso, até o conteúdo no lixo dos Delfins Netos e Simonsens da vida) é denunciar a idade, segredo milenar de mulher. Mas pra tudo nesta vida é preciso uma certa coragem: da revelação pública que já se passou dos 50, e aí a indiscrição é pessoal, até o reconhecimento que a liberdade total e absoluta para manchetear tudo e mais um pouco não leva necessariamente à mudança das coisas. E aí a frustração é profissional mesmo.
Nunca, nos últimos 20 ou 30 anos, a imprensa do Paraná exerceu com tanta liberdade o seu papel essencial, o de levantar a fumaça sobre os assuntos mais nebulosos, em todas as áreas. Muito mais pela postura intransigente do governador Requião em cortar os subsídios oficiais do que por amor ao ofício. Mas não importa aqui o caminho, e sim o caminhante. Das contratações mequetrefes do Tribunal de Contas, passando pelas confusões da Sanepar e a dourada gestão do irmão psicanalista do Porto de Paranaguá, nepotismo de Governo idem, tudo está nas páginas nestes últimos meses. Abriu-se uma porteira irreversível que dificilmente será fechada. E, de novo, não por que nossos veículos de comunicação, em sua maioria, tomaram gosto pela independência, mas sim porque o leitor, afinal o principal interessado, agora quer ver mesmo é o circo pegar fogo.
E aí surge a grande questão: por que, apesar de todo mundo estar sabendo de quase tudo, não há na linha do horizonte nenhum sinal de punição, sequer de investigação sobre todas denúncias lançadas pela imprensa no Paraná nos últimos tempos? Exemplos? Deus do Céu, foram centenas de páginas sobre a família Requião vergonhosamente empregada no Governo, quilômetros de linhas sobre o superfaturamento na Sanepar, contratos milionários no Porto, gastos indefensáveis na comunicação, compra de material escolar sob tráfico de influência, assuntos tão reprisados que a impressão é que se lê o mesmo jornal, ou a mesma coluna, todos os dias. E não é só no governo do Estado que as denúncias vão para o ralo. Até hoje, quase dois anos depois, o prefeito Beto Richa continua devendo uma explicação sobre o altíssimo custo das placas do encontro da ONU em Curitiba. Nem vamos falar da instalação dos radares em Curitiba e da legislação mandrake aprovada pela Câmara sobre o uso do solo na área central de Londrina. E nem seria de bom tom especular sobre a Fazenda Lagoa da Prata que o senador Osmar Dias adquiriu no longínquo estado de Tocantins.
Pela cozinha
Por estas, e muitas outras suspeitas que continuam em aberto aqui na nossa cozinha, no Paraná, pode-se chegar à conclusão que, da parte da imprensa, não adianta nada cacarejar, apontar, levantar a fumaça: os principais artistas se encolhem até o turbilhão passar e depois voltam a agir como sempre agiram. Não, muito pelo contrário. Há que seguir em frente e começar a varrer o chão pela cozinha mesmo. A única forma de combater a corrupção é segmentá-la, apontá-la com o maior estardalhaço possível dentro do quintal, porque aqui a memória se mantém por muito mais tempo, no círculo de convivência mais próximo. Se o vizinho for preso pelos bravos rapazes da Polícia Federal, terá ele coragem de aparecer na reunião do condomínio? Nem morto.
É claro que, após cada denúncia publicada pela imprensa, espera-se o próximo capítulo com o bandidão atrás das grades, condenado. Não tem sido assim. Talvez demore séculos para que assim seja. Mas nosso papel é o de ficar apontando maracutaias até o fim dos tempos. Que nos perdoem os leitores pela mesmice dos assuntos. Tenham fé: um dia, a casa cai.





