RUTH BOLOGNESE
Em busca das Cerejeiras
Na bagagem do casal Requião que seguiu, nesta semana, para a primeira viagem internacional do terceiro Governo, foram incluídos vários pacotinhos de um presente simples, barato, comum nas lojas de artesanato da Capital, mas de extremo bom gosto e representatividade: caixas com coleções de pedras brasileiras, escolha de dona Maristela para cumprir o ritual de quem visita o Japão, onde a troca de lembranças com visitantes é tão tradicional quanto as cerejeiras em flor.
A comitiva do governo paranaense atravessou meio planeta carregando pedrinhas de diversos matizes com um objetivo claro e definido e que não tem nada a ver com assinatura de convênios, cidades-irmãs ou atração de investimentos, justificativas de dez entre dez viagens oficiais além fronteiras. O governo quer reprisar, mas com muito mais pompa e circunstância, as comemorações dos 70 anos da imigração japonesa no Paraná que, há 30 anos, trouxe para o Norte do Estado um príncipe, Akihito, flagrado no gesto prosaico de amarrar o cadarço do sapato em pleno palanque de autoridades e uma princesa, Michiko, que encantou todo mundo com seus conjuntinhos impecáveis, de cores sempre claras, colares e brincos de pérolas e sua sombrinha cor-de-rosa. Em junho do ano que vem serão 100 anos, e a expectativa é contar com ninguém mais, ninguém menos, do que a presença da família imperial no Norte do Paraná: os mesmos príncipes, revestidos agora da realeza da dinastia do Sol Nascente.
Cuidados e expectativas
Daí, todo o cuidado com que a comitiva paranaense seguiu para o Japão. Os deputados que a compõem, por exemplo, chegaram a mandar imprimir cartões de visita (outra verdadeira mania no Japão, a troca de cartões) em português e japonês. Delicadeza de se admirar para quem vive nos embates chinfrins da Assembléia Legislativa.
Uma visita deste quilate, todo o governo e seus aliados sabem, terá a função de homenagear os 150 mil japoneses e seus descendentes que vivem no Paraná e, de quebra, recuperar, por um período pelo menos, a imagem de um Governo totalmente desgastado e sem saber muito para que lado seguir.
Um século de amizade
Questões políticas à parte, o que interessa a nós, paranaenses que nascemos e crescemos neste espaço de terra vermelha do Norte Paraná, é que os japoneses fazem parte da nossa história. Os Higachi eram nossos vizinhos da frente da rua em Terra Boa e foi lá, na casa deles, que uma menina ficou deslumbrada com as revistas japonesas de milhares de páginas, todas coloridas, com personagens desenhados com olhos imensos, e que se folheava de trás pra frente. O mistério do ofurô, a delicadeza das comidas, o valor do estudo, o trabalho de sol a sol, tudo isso se vivia naqueles tempos entre vizinhos japoneses e italianos.
O ''seu'' Higachi chegava do sítio já escuro e o barulho do Jeep Toyota dava o sinal que era hora da criançada ir pra casa. Como resultado do amor ao trabalho, todos os filhos Higachi, três meninas, Amélia, Helena e Carmem, e o guri, Jorge, se formaram e correram o mundo. O casal ficou por lá, até que um dia, muitos anos depois, o ''seu'' Higachi foi atingido por uma árvore que ele mesmo derrubava com motosserra, e morreu. Dona Olívia foi morar com uma das filhas em Maringá, e nada mais se soube deles. Certamente os filhos e netos dos Higachi devem ter seguido a trilha dos dekasseguis, os que vivem a saudade pelo avesso.
Continuam, porém, vivos na memória, como o sabor do missô misturado com arroz e feijão, que ainda hoje se come lá em casa. Eles também devem se lembrar da macarronada com frango que a Vó fazia e nós, crianças, comíamos escondido no Domingo de tarde, sem esquentar. Italianos e japoneses, mais a mistura brasileira e 100 anos de convivência: a gente merece sim, a visita da Família Imperial. Tomara que o governador Requião se comporte bem por lá, esqueça as gracinhas de sempre e faça um convite gentil e irrecusável.





