A ausência que compromete
E eis que o Papa, que é o Papa, com a maior humildade, deu uma grande lição de prática política aos brasileiros: veio conferir seu rebanho latino- americano e, durante quatro dias, abanou mais a mão para a multidão do que candidato a vereador em final de campanha. Mais, criou um fato político ao dar lição de moral para o Governo sobre o aborto, e promoveu um assessor graduado, o Frei Galvão, a Santo, que passa a condição de um supercabo eleitoral da fé católica no Brasil. Ou, no plano mais terreno do marketing pessoal, vamos chamar assim, Bento XVI ocupou todos os espaços através de uma coligação de interesses mútuos entre a Igreja Católica e a Globo, maior rede de TV brasileira. Melhor estratégia do que esta, nem marqueteiro pago a peso de ouro seria capaz de bolar.
A visita do Papa é fato de altos significados, para ficar na história, mas mostra que, do maior chefe religioso do planeta ao líder político de Querência do Norte, o que vale mesmo é estar na área, ora confortando os mais necessitados, ora criticando a ação do capeta, quer dizer, do adversário. E antes que alguém estranhe a mistura entre as santas demandas da Igreja Católica com as condenáveis artimanhas políticas, é bom esclarecer: a comparação é apenas de forma, não de conteúdo.
Aqui, no nosso terreiro paranaense, o exemplo dado pela presença papal entre as multidões deveria ser motivo de reflexão para o senador Osmar Dias. Novamente o esclarecimento: não estamos colocando no mesmo patamar de importância o Urtigão e Bento XVI, mas, sim, chamando atenção para a forma de ocupar espaços de um e de outro. Se fôssemos apelar para a música, diríamos que um Papa, um artista ou um político devem estar aonde o povo está. É o que o Papa faz e o Urtigão não faz.

Pela honra das urnas
Desde que perdeu a eleição numa derrota vitoriosa por pouco mais de 10 mil votos, o senador Osmar Dias aquietou-se em Brasília como se os três meses da campanha eleitoral tivessem esgotado as últimas forças de suas pernas já combalidas pela flebite. Ao entrar na campanha eleitoral, Osmar Dias era o único candidato capaz de enfrentar Roberto Requião nas urnas. Ao sair, transformou-se, pelo número de votos recebidos, no único político paranaense em condições de liderar uma oposição ao governo reeleito, cobrar as promessas feitas, apontar os desencontros e os equívocos. Pode-se dizer que as urnas deram um resultado duplo ao apontar o governador e seu maior fiscal, tudo ao mesmo tempo.
Ao ficar calado em Brasília, enquanto o Paraná se debate entre os solavancos de uma administração caótica e sem perspectivas e um governante que, a cada dia, nos apresenta uma nova qualidade de insensatez, Osmar Dias não honra o lugar apontado pelos milhares de votos paranaenses. Despreza a confiança dos eleitores e condena seu próprio Estado a passar, sem oposição alguma, por quatro anos de confusões e desmandos.
Pode ser que, na solidão das planícies do Tocantins, onde se refugia com frequência, o senador Osmar Dias dê de ombros para este eleitorado que não o elegeu governador. É uma espécie de vingança eleitoral, na base do ''escolheram o Requião? Agora, tratem de embalá-lo''. Pode ser até que, num cruel desatino, mas compreensivelmente humano, o senador alimente aquele sentimento do ''quanto pior melhor'', ferramenta infalível para conduzi-lo ao Palácio Iguaçu na próxima eleição.
São muitas as justificativas e as razões que mantêm Osmar Dias na morna condição de mais um senador paranaense em Brasília. Nenhuma delas, porém, será suficiente para convencer o eleitorado a confiar de novo num político que se afastou durante a tempestade. A ausência de Osmar Dias compromete seu futuro não apenas na disputa pelo Governo daqui a quatro anos mas, também, como liderança. Ora, se até o Papa, que é o Papa, veio em carne e osso mostrar presença aos seus fiéis seguidores e devotos, o que é que o Urtigão espera encontrar, depois de distanciar-se tanto assim dos eleitores? Confiança em forma de votos? Provavelmente nem votos nem devotos.

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