RUTH BOLOGNESE
De cuecas no Palácio
A função básica de um jornalista que acompanha os fatos políticos diariamente é o de mostrar, nem que seja através de densa fumaça, o que ocorre nos bastidores do poder. Mas é preciso saber recuar em hora determinada, ou não ultrapassar o limite do bom senso, mesmo quando a autoridade que detém ou representa o poder, se perde no emaranhado de suas próprias confusões e trapalhadas. Por isso, antes que o remorso que se instalou no peito desta jornalista que, por hábito, não poupa de críticas nem a própria família, provoque um estrago pessoal ainda maior, eis o mea culpa. É um pedido de desculpas de quem nunca imaginou o dia em que chamaria o governo do Paraná, constitucionalmente eleito por milhões de eleitores, de ''palhaçada'', como na nota publicada neste espaço na última quinta-feira. A referência era ao ofício enviado do Palácio Iguaçu para a Assembléia Legislativa, anunciando a rifa de um ônibus entre os deputados em troca da presença na Escola semanal de Governo.
A nota-desabafo não foi mais uma ousadia, nem um ato de coragem. Não se tratou de quebrar tabus ou usar de artifícios para mostrar a decadência administrativa e moral da atual equipe de Governo. Ao nominar o poder Executivo, representado na figura do Governador, de ''palhaçada'', ultrapassa-se o limite de respeito que se deve ter, não com o Governo em exercício nem com o Governador, mas com o povo do Paraná. E desrespeitar o povo do meu Estado é como, num momento de desvario, dar uma rasteira no pai ou gritar com a mãe. Fere a alma sem remédio. Daí o remorso, e o pedido público de desculpas que este espaço oportuniza.
Entre a ''loucura''...
Mas o mesmo assunto leva a outras questões, além do remorso corroendo a jornalista. A começar por esta ''loucura'' que caracteriza o governador Requião, já histórica e cantada em verso e prosa, tanto para o bem como para o mal. Afinal, até então, era uma ''mansa loucura'', relevada circunstancialmente como se relevam as diatribes daquele sobrinho inteligente que acaba pesando a mão nas festas de família. Nesta semana, porém, ao transformar uma brincadeira num documento oficial e enviar, através do seu chefe da Casa Civil, Rafael Iatauro, a rifa indecorosa de um ônibus para a Assembléia Legislativa, o governador Requião deixou de ser o sobrinho engraçado que encabula a família para se transformar no governador inconsequente. Brincou com o poder que lhe foi conferido por milhões de paranaenses e estendeu a brincadeira para outro poder, o Legislativo, também legitimado pelo voto popular. Depois disso, se aparecer para trabalhar no Palácio Iguaçu em cueca samba-canção ou fazer xixi na bandeira paranaense mirando os símbolos do mate e do café, não surpreenderá. Vamos deixar, então, que este ato de desvario público do Governador por conta de um momento atormentado do governante que perdeu o rumo da gestão. E se superou na arte de desviar a atenção para longe dos problemas que o afligem.
...e a pusilanimidade
O que espanta, ainda mais, é a atitude do presidente da Assembléia, o deputado Nelson Justus, que não foi capaz de se levantar da macia poltrona a ele conferida democraticamente e sair em defesa dos seus 53 deputados. Não foi capaz, sequer, de recusar o ofício desabonador do Palácio Iguaçu e enviá-lo de volta sob o argumento da mais básica regra da convivência entre civilizados, que dirá, da arte da política, o respeito. Não foi capaz de unir seus próprios comandados para, juntos, saírem em defesa, não da Casa do Povo, mas do próprio povo paranaense, que certamente, não votou nem num Governo que usa a caneta oficial para brincar de rifa infantilóide. E muito menos em deputados que, em sua maioria, sequer se mostram indignados diante do flagrante desrespeito às instituições que, afinal, distinguem as fronteiras do Paraná no mapa da Federação.
Vivemos um tempo de provas e contraprovas diárias de nossa capacidade de agir e reagir diante do descalabro evidente. A cada um, o seu próprio julgamento.





