RUTH BOLOGNESE
A DIRETORA DE LONDRINA E AS DOCES AVÓS DA CORÉIA
A imagem, por lúdica e bela, ficou gravada na memória: uma pesquisa internacional sobre aprendizado de leitura mostrou resultados elevados demais na Coréia. Novas pesquisas foram feitas, comprovando os dados. Mas, ainda assim, era preciso avançar mais e descobrir o mistério. Ao visitar uma escola, um emissário entendeu a razão quando perguntou porque várias mulheres, mais velhas, ficavam espiando os alunos nas janelas. Descobriu que eram avós vigiando os netos para garantir que prestavam atenção nas aulas.
A presença das avós nas janelas das escolas é apenas parte da obsessão nacional pela educação que ocorre em países de etnias chinesas e explica o desenvolvimento em todas as áreas naquela região. E no Japão, meio mundo já ouviu isso alguma vez na vida, o único súdito para quem o Imperador se curva é o professor.
O sequestro-relâmpago da diretora Maria de Fátima Gonçalves, da Escola Estadual Mungo Jenes, de Londrina, por quatro jovens, nesta semana, evoca as imagens das vigilantes avós coreanas e do sábio imperador do Japão. E evoca com tristeza porque, dos dois jovens assaltantes, dois eram menores e alunos da própria escola. Os fatos falam por si e dimensionam a tragédia brasileira.
Sem saída
Imaginar que os quatro jovens, quando assaltaram, sabiam quem era Maria de Fátima, 38 anos, mãe recente de gêmeos, mata na casca qualquer perspectiva de mudança neste Brasil da Bolsa-Família, como caminho direto para reduzir o abismo entre pobres e ricos. Ora, se os meninos decidiram sequestrar a própria diretora da escola, onde estavam se preparando para dar certo na vida, então a contradição expõe o erro de origem: já não é por aí. Se nada aprenderam de respeito e consideração por quem está tentando ensinar o certo e o possível, não resta muito a fazer. E não tendo muito que fazer, aos homens e mulheres de bem resta esperar que os jovens londrinenses venham a cometer crimes mais graves e torcer para que, se não forem assassinados nas ruas dentro de pouco tempo, sejam condenados pela Justiça a uma vaga a mais na prisão. Conclusão: vive-se num Brasil onde a saída mais segura, até seis meses atrás, era o aeroporto mais próximo.
Mas, vamos considerar que a situação ainda não é tão dramática e que os jovens cometeram um engano ao sequestrar a diretora, não sabiam mesmo de quem se tratava. Eis aí mais um número a fomentar a estatística da violência brasileira. Muda muito a situação? Na realidade do nosso dia-a-dia são quatro jovens que, na mais tenra idade, trocaram a sala de aula pelo assalto-relâmpago e próximos, muito próximos de cometer o crime maior, ou os crimes maiores que irão compor as manchetes do jornal do dia seguinte.
A solidariedade à diretora de Londrina é a mesma que nos comove ao ver um menino de 6 anos abatido barbaramente nas ruas do Rio de Janeiro, jovens mulheres sendo queimadas dentro de ônibus ou atingidas por balas perdidas. E depois da solidariedade vem a insegurança de não termos sido nós, ainda, a figurar nesta lista interminável de sofrimento e horror.
No caso da diretora Maria de Fátima, o choque não foi pela violência física exacerbada que, felizmente, ela não sofreu. Foi por algo mais sutil, e por isso mesmo, mais arrasador: a certeza de que a grande esperança nacional, a fé na educação como forma de conduzir gerações e gerações de jovens para uma alternativa que não o assalto à mão armada, em muitos casos, já não surte efeito nenhum. Já não podemos nos mirar no exemplo das avós coreanas e ficar à espreita na janela da escola para garantir que nossos meninos estudem direito. Primeiro, porque eles já estarão nas ruas, ''espertos'' e ávidos pela primeira vítima. Depois, porque avós indefesas próximas às escolas brasileiras da periferia correm todo o perigo do mundo.





