FORA DO ESQUADRO

Durante a semana, o arquiteto Jaime Lerner fez uma incursão por rádios e TVs da Capital na esteira dos 314 anos de Curitiba. Não houve, e dificilmente haverá, político tão identificado com a cidade quanto ele. De todos os méritos urbanos que tem, talvez o maior tenha sido psicológico: com a propaganda da cidade planejada conseguiu transformar a Curitiba sem graça e fria, que nada tinha a oferecer no Sul diante das belezas de Floripa e da tradição de Porto Alegre, num point reverenciado em escala de primeiro mundo. Merece mesmo todas as homenagens e as lembranças.
Mas ainda causa surpresa que, com tantos anos, mais de 30, como prefeito e governador, Jaime Lerner não tenha adquirido um mínimo de experiência na arte de fazer política. Pior que isso, o sofisticado arquiteto, que se movimenta nas principais metrópoles do mundo com a mesma naturalidade com que toma um cafezinho na Boca Maldita, em Curitiba, vira um neófito ingênuo quando se trata de fustigar o principal e eterno adversário, o governador Roberto Requião.
Durante semana, ao falar a jornalistas da Capital, decidiu fazer um trocadilho sobre o absolutismo de Requião e o chamou de ''Pinochavez'', como o próprio nome diz, uma mistura do ditador de direita do Chile, Augusto Pinochet, com o ditador de esquerda da Venezuela, Hugo Chaves. É, tá valendo, mas é de uma ingenuidade quase patética.

CRITICA VAZIA

Ora, para um homem com tanta experiência como governador do Paraná e prefeito da Capital, convenhamos, é muito pouco. Para aqueles 50% menos 10 mil paranaenses que estão à espera de uma liderança minimamente confiável que aponte, com clareza, a confusão generalizada em que se transformou o Trigoverno de Requião, é um nada.
Pelo conhecimento que detém da máquina pública local, a visão adquirida por esse mundão afora, e como adversário político, Jaime Lerner teria obrigação de apresentar sua radiografia mais apurada da atual administração paranaense, baseada em números e fatos, apontando os descaminhos e o desgoverno. Tem todas as condições pra isso e mais credibilidade.
O Jaime nunca foi chegado a críticas, muito menos as contundentes, diriam as viúvas lernistas. Muito bem. Então, que tal se o ex-governador optasse por aquilo que sabe fazer com maestria e, na ponta do lápis, mostrasse o que poderia ser feito se um Governo, com um mínimo de planejamento estratégico, estivesse comandando o Palácio Iguaçu.
No exercício da política, e não está se falando aqui de candidaturas e afins, mas sim daquilo que todo cidadão deve exercer diariamente, o de acompanhar a atuação dos governantes, as críticas e os projetos para o futuro são matérias- primas básicas. Em se tratando de um ex-governador recente, é dever de ofício.
Mas Jaime Lerner preferiu ficar na rabeira do debate, optou pelo trocadilho criativo, e meio besta, e perdeu uma ótima oportunidade de aumentar o patrimônio pessoal que todo ex se esforça em manter fora da política: o de deixar saudades.

A Doença e a Informação de Governo

E o governador Roberto Requião voltou a circular por cerimônias oficiais fazendo as piadinhas sem graça, como sempre. Depois de uma semana, o retorno dele não esclareceu, oficialmente, o motivo do afastamento. As especulações apontaram, hora uma infecção urinária, hora o início de um problema de próstata e até a sempre recorrente pressão alta.
Problema de saúde e de amor é, de fato, uma questão de privacidade. Mas não no caso do mais importante funcionário público do Estado, que faltou uma semana ao serviço e sequer apresentou um atestado médico.
Doença de governante é assunto de interesse público, sim, e deve ser explicada com clareza. Não é necessário colocar equipes de TVs, rádios e jornais no quarto do doente, mas bastam um ou dois boletins oficiais e pronto. Fora isso, o que vale é a especulação e, na especulação, tudo é válido. Pior pra ele. Vai doer mais.

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