RUTH BOLOGNESE
Quando eles brigam é bom
No mar de mensaleiros e processados em geral que a Câmara Federal se transformou nos últimos anos, nada parece salvar a imagem dos deputados que, a cada dia, recebe um pouquinho mais de lama. Um ou outro, muito poucos na verdade, ainda detém o respeito da população. E, para piorar o quadro, o governo Lula conseguiu pinçar entre os mais de 500 eleitos, um Balbinotti da vida, por azar nosso, gaúcho radicado no Paraná que, entre os deslizes da longa carreira no legislativo brasileiro, é sementeiro suspeito de puxar para seu canteiro, sem pagar um centavo de royalties, as pesquisas da respeitada Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, Embrapa.
Quando se observa o comportamento da Câmara Federal de longe (de perto é quase impossível porque exige máscara de proteção) o que se vê é um conchavo permanente em busca de verbas indenizatórias e de favorzinhos em forma de emendas orçamentárias, no troca-troca promíscuo entre o chamado pudê e os legisladores eleitos.
Daí que, as imagens de deputados se enfrentando aos gritos e quase aos tapas no plenário da Câmara, longe de chocarem pela falta de decoro parlamentar, são animadoras. Nesta semana, as TVs de todo o País exibiram os homens e seus ternos impecáveis, de dedos em riste e empurrões nervosos, nos embates sobre a CPI do Apagão Aéreo. Divergências de opiniões gerando ânimos exaltados. Uma beleza! Deputados governistas e deputados oposicionistas deixando jorrar o lado mais hard, tentando impor seus pontos de vista com o entusiasmo de jogadores de bolinha de gude.
A CPI do Apagão não saiu e frustrou aqueles brasileiros que andam apavorados em passar horas e horas em aeroportos que lembram a mais ralés rodoviárias. Mas jogo é jogo e a democracia está aí pra isso mesmo.
O que é didático nestas alturas, o que separa o exercício da democracia do interesse pessoal, aparece mais na forma do que no conteúdo: primeiro o embate aberto, exposto no plenário, dos gestos e gritos na defesa e no ataque da CPI do Apagão Aéreo. Depois, com murmúrios de cúmplices, na calada do plenário, os deputados federais resolveram o aumento dos próprios salários e a legalização do jabaculê sob o nome de verba indenizatória. E o República Bananeira passa a ter um dos parlamentos que mais custam aos cofres públicos em todo o mundo.
Diante de uma atuação tão óbvia, uma idéia: que tal se a gente tirasse as crianças da sala e começasse a instigar os deputados a brigarem mooiiiinnto em plenário. Isto mesmo, grupos de brasileiros poderiam se instalar nas galerias dos parlamentos federal e estadual, o dia inteiro e noite adentro, com a única função de ficar gritando isca! isca. É a única maneira de fazer com que deputados exerçam a função básica para a qual foram eleitos, ou seja, brigar por nós. Se houver uma violência física mais preocupante entre um e outro político mais agressivo, chama-se a polícia para apartar e pronto. E se os sopapos atingirem um notório mensaleiro, ou ganhador de loteria, ou um petista convicto demais, pode-se deixar a briga correr por mais uns cinco minutos antes de chamar por socorro. Sem culpas. Será bem merecido.
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