Os professores, o joio e o trigo
Por conta da emenda à Constituição paranaense que elevou o gasto obrigatório em educação de 25% para 30% do orçamento, a Secretaria Estadual da Educação conta, neste ano, com R$ 495 milhões a mais que em 2006. O secretário Maurício Requião pensa em gastar a maior parte dessa bolada num programa ousado para elevar a qualidade do ensino das 500 escolas estaduais cujos alunos tiveram os piores índices nas avaliações promovidas pelo MEC. A idéia do secretário é providencial e merece atenção.
São escolas quase sempre situadas nos pequenos municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ou nas periferias das médias e grandes cidades, onde tudo é desfavorável: as condições socioeconômicas das localidades, baixa escolaridade e renda das famílias dos alunos, escolas carentes de recursos, professores desmotivados ou pouco capacitados.
Maurício Requião imagina mudar radicalmente esse quadro em quatro anos, levando seu programa a 125 escolas a cada ano. Não se trata apenas de investir em novos recursos físicos - melhorias e reconstruções dos prédios escolares - ou pedagógicos - bibliotecas, computadores, laboratórios. O secretário da Educação prega a necessidade de investir também, e principalmente, na motivação e capacitação dos professores, em adequar os projetos pedagógicos à realidade local, democratizar a gestão das escolas e em envolver a comunidade e os pais nessa tarefa.

A pedra no caminho
É um belo programa. Mas tem, como na poesia de Drumond, uma pedra no caminho: o próprio professorado, representado pela APP-Sindicato. A APP está em campanha salarial e não é pouco o que pede do governo: quer reposição salarial integral das perdas no governo Lerner (que não deu um mísero aumento em oito anos), quer equiparação salarial com outros funcionários públicos com nível superior (um aumento de 57%) e exige, para ontem, um aumento substancioso.
A APP argumenta que dinheiro o governo tem: e exibe como prova os mesmos R$ 495 milhões adicionais do orçamento da Educação deste ano. Se o governo atender a APP na metade do que pede, vai precisar o dobro dos R$ 495 milhões. E o programa de Maurício Requião para transformar a educação nas escolas públicas mais carentes vai virar pó.

Entre o interesse e a realidade
A APP tem como premissa fundamental a defesa dos interesses salariais dos professores. E escreveu sua própria história através da pressão permanente, aguerrida, sem tréguas aos sucessivos governos instalados no Palácio Iguaçú. Até aí, tudo bem.
Mas, tantos anos de estrada, e de experiência, exigem da principal entidade de representação de professores algo mais do que a luta classista. É chegada a hora de analisar não apenas o que é bom para os professores paranaenses, mas o que é bom, também, para o Paraná. Se o programa apresentado pelo Governo pode beneficiar e melhorar a educação de centenas de alunos, exigir a aplicação dos recursos apenas para a melhoria salarial da categoria será um erro, senão estratégico, pelo menos, equivocado. Inviabilizar um bom programa escolar com greves intermináveis poderá, a curto e médio prazo, derrubar a base de apoio popular, o elemento crucial de qualquer batalha reivindicatória.

Uso do cachimbo
Na história política contemporânea do Paraná os professores formaram a categoria mais crítica em relação aos governos que passaram pelo poder local. Mais ainda do que a imprensa, esta aliás, sempre muito mais suscetível às verbas oficiais do que aos interesses da população. É claro que se deve reconhecer o valor deste papel, sujeito até a prisões, pancadarias e perseguições por parte do Governo. E pode-se compreender, também que tantos anos de luta, mais um Governo que se desmancha no ar a olhos vistos, sem prumo e sem rumo, como este comandado pela terceira vez por Roberto Requião, levam àquela posição mais fácil de ser exercida: a crítica permanente contra tudo o que o Governo se propõe.
É verdade que fica cada vez mais difícil separar o joio do trigo e reconhecer que os recursos da secretaria de Educação devem ser aplicados naquilo que o irmão do Governador propõe. Mas, maturidade política é isso mesmo: ter a coragem de recuar quando os interesses gerais se sobrepõem aos objetivos de uma categoria. O resto é picuinha. E picuinha não enche barriga de ninguém. Nem resolve problema de educação.

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